Almocei com a voz de uma senhora sentada atrás de mim, reclamando da vida. Dona de uma voz forte, um pouco grossa e de um volume não muito comum. Um pouco acima da média. Fiquei o almoço inteiro tentando imaginar seu rosto. Em nenhum momento me virei para ver quem era. Estas coisas nunca funcionam comigo. Nunca acerto o que imagino antes.

Para pagar a conta ficou à minha frente na fila. Cabelo desgrenhado, provavelmente com alguns dias sem ver um pente, morena, alta, calça jeans, uma blusa creme bem justa que revelava mais da metade de uma barriga bem avantajada.

Imagem ilustrativa

Na fila para pagar o almoço, ela mudou de foco. Trocou as reclamações que fazia da vida, durante o almoço, para reclamar da Europa. O problema é que não havia ninguém junto com ela. Elegia alguém, mirava no fundo do olho e atacava. Não adiantava fazer de conta que a conversa não era com a gente. Ela falava mais alto ainda, até que a vítima olhasse para ela e dissesse algo. Em alguns casos ela se contentou com um sorriso.

Claro que lá pelas tantas simpatizou comigo, mas antes passou pelo menino do caixa e o responsabilizou pela crise financeira da Europa. E ali pude perceber que não se tratava de conversa para ser jogada fora. Com o menino ela falou sobre o a dívida pública da Espanha. Chegou até a dizer o que até recentemente os jornais trataram, fez previsões para o futuro do governo espanhol etc.

Comecei a perceber que ela oscilava entre momentos de lucidez, e em outros momentos “viajava”.

Por mais que tivesse prevenido, me pega de surpresa, virando pra mim e pergunta se eu conhecia a Europa? Achei que ia engatar a conversa da dívida espanhola, mas me derrubou com uma outra conversa. A bola da vez passou a ser o marido dela. “Um verdadeiro canalha”, segundo ela. “ Tão canalha, disse ela, que nem um almoço destes ele é capaz de me pagar. Virou pra mim e disse apontando o dedo, “ você que não é canalha e nem meu marido, pode pagar este almoço pra mim”?

Tudo foi tão rápido e inesperado, com uma conversa tão bem amarrada por ela, que silenciou o restaurante inteiro. Todos ficaram me olhando. Fiquei me sentindo o marido canalha por alguns instantes, mas a situação e a construção da situação foi tão envolvente que comecei a rir. Junto comigo todo o restaurante também achou graça, mas do meu constrangimento.

Ela faz silencio e firme continua me olhando, esperando uma resposta. Por alguns segundos ela tirou toda a atenção que estava nela e passou pra mim, sem que eu quisesse.

Pelo inusitado, ainda dei uma olhada de canto de olho para ver se não tinha nenhuma câmera escondida. Me passou pela cabeça uma cena destas de pegadinha do Silvio Santos. Também não queria ser vítima de um golpe.

Mas que golpe?

Um simples almoço, pensei.

Tudo isso deve ter durado uns 15 segundos.

Até que respondi que sim, pagaria o almoço.

Ela abre um meio sorriso, vem até onde estou, me entrega a comanda, agradece, me deseja uma boa tarde e sai.

O almoço dela custou 8 reais e 10 centavos. Almoço sempre ali, nunca a vi, nunca ninguém a viu. Ninguém sabe quem é.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.