Todos somos um pouco das pessoas que conhecemos, com quem convivemos, somos os caminhos escolhidos.

Há 10 anos perco um pouco, a cada dia nesta troca de construções entre seres que se aproximam. A cada dia sou menos do que gostaria de ser na convivência com meu pai.

Deixo de construir a partir da convivência diária que tínhamos. Ainda assim, mantenho. Sou muito ele, mas já sem o abastecimento de novas partilhas, nestes últimos 10 anos.

A partir daqui, cairia naquele texto de lugar comum, me tornando chato falando das saudades que sinto dele, da falta que faz em tudo.

Neste exato momento, mais que tudo, por muitas razões.

Imagem ilustrativa

Uma vez, há uns vinte anos, vivendo situação semelhante, lembro que sem nenhuma palavra, apenas com a mão segurando minha nuca, me disse que estava ali.

Pouco antes de ir, andava azedo, mal humorado, sem paciência para coisas que em algum momento da vida lhe deram prazer ou com problemas que tirava de letra. A morte já me deu várias dores: de pai, de irmão, de mãe, de tias, avós, primos, amigos, amigos do peito.

De todos eles tenho um pouco em mim. Ultimamente a baixa tem sido grande. Tem muita gente me deixando na mão. E, claro, estas partidas nunca acontecem no momento certo, a gente nunca espera, por mais que os sinais sejam dados.

Tem também os que saem de cena sem autorização da gente. Os que continuam por aí, mas preferem ou precisam de distância. Estes também estão entre as piores partidas. Porque ainda estão aí, mas preferem o exílio. Às vezes desaprendo com estas perdas. Ainda não entendo.

Então, tiro do fundo da alma, as partidas doídas, mas que sei que foram involuntárias, as que não queria, mas sei que precisavam ir.

Todas elas doem. Como diz a música de Chico, as especiais são “ metade arrancada de mim”. Mas sigo. Levo um pouco de cada um porque sou um pouco de cada um deles.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.