Percebo que a idade vai debilitando, diminuindo as tuas reações, limitando as ações. Você não percebe que o humor também já foi embora. Sem aviso, nem nada.

Você já carrega um semblante de desconforto. Se o humor tivesse pelo menos avisado que também estava indo embora, talvez deixasse as coisas um pouco mais leves e você se adaptado mais rapidamente à idade, é verdade que leveza nunca foi mesmo o seu forte.

A idade cruel que já passa dos 80, não podia ter te deixado assim, já meio desligada de algumas coisas, mas se tivesse o humor estas coisas não seriam tão importantes, não é?Na verdade não são nem um pouco importantes mesmo, mas ficam porque você faz questão que assim seja.

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Pensando bem, oitentinha nem é tanto assim, mas a tensão de todos os anos vividos, tiram o mínimo de qualidade que você poderia ter neste resto de vida. Afinal, em algum momento você tem que sorrir. O humor se foi, mas já esteve com você por algumas vezes. Poucas, é verdade. Será que só este pouquinho não poderia ser recuperado? Acho que não, né? É que o humor que você usou era recheado de um riso tenso, nervoso, debochado, que vinha estranho. Parecia que não era um riso daqueles que sai pela boca e pelos olhos. O teu riso podia ter muita coisa, mas não tinha alegria. Porque alegria mesmo você teve poucas. Quando teve, arrumou logo algo maior, porque achava que a você não era permitido ser alegre. Um riso frouxo, risada com os olhos, eu nunca vi em você.

Que pena, você já tem 80 anos e ainda não sorriu direito! Prefiro acreditar que ainda vou te ver sorrindo de verdade. Sem culpa. A leveza tem que estar escondida em algum lugar ai dentro. Talvez a mesma leveza que está na relação com as flores do seu jardim. Já flagrei uma conversa entre vocês, mas não entendi. Vocês se entendem bem, não é ? Você cuida delas com tanto carinho! Se orgulha delas que parecem seres especiais, as únicas a guardar os teus segredos. Os espinhos do roseiral talvez contem melhor porque estão ali e nos mostram suas funções: guardam e zelam pelo odor e a beleza das rosas, mas também parecem guardar seus segredos e seu sorriso.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.