Emannuel Publio Dias é um nome bem conhecido nacionalmente no mundo publicitário. Sempre frequentou o melhor noticiário dos jornalões, dando opiniões, muitas delas em função da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de que é o professor decano, e da qual foi também vice-presidente.

E se tornou referencial também no marketing político, embora ele se considere mais um planejador de ações de campanhas. Paranaense adotivo, pois vive desde os anos 1980 na ponte aérea São Paulo-Curitiba, Emannuel responde à Coluna: nos grandes centros o apoio ou rejeição a Bolsonaro (“ele detém 30% de aceitação popular”) e a maneira como os políticos administram a pandemia serão fatores determinantes para os resultados da eleição de novembro.

Isto especialmente nos grandes centros. Caso, pois, de Curitiba, onde muito se discute a “preferência” dada pelo atual prefeito a asfalto e empresas de ônibus em detrimento à crise sanitária, como a Coluna tem mostrado A seguir, a entrevista de Publio Dias, precedida por auto-apresentação:

Paulistano-pernambucano

“ Sou paulistano, mas de DNA cultural pernambucano. A família toda. Até hoje peno para achar coentro no inverno em Curitiba! Acresça-se uma formação familiar católica, turbinada pelos jesuítas, com quem estudei até a faculdade.

Sou publicitário de formação e vocação, formei-me no longínquo ano de 1973 na USP e em SP iniciei minha carreira. Foi uma época boa, a publicidade brasileira estava no auge. Tive a sorte de trabalhar com os melhores publicitários da época, entre eles, Sergio Reis, que um dia me convidou para vir a Curitiba. Pensei que era uma oferta de emprego, ele me levou para almoçar em Santa Felicidade, passeando pelo Barigui.
Bem do jeito dele, a oferta viria em 1989, para trabalhar no Bamerindus. Jaime Lerner brilhava aqui e no Brasil inteiro, achei fascinante a ideia de me mudar para uma cidade que ousava em todos os
campos, urbanístico, cultural e econômico, apontando para o novo milênio.

Não me decepcionei, vivi anos intensos aqui, tanto como neo-curitibano como profissionalmente (os melhores anos no Bamerindus. E depois, com a fantástica e criativa equipe da Master).

Com minha esposa May e dois filhos, mudamos de vez para cá. A crise do inicio do anos 2000 praticamente acabou com as grandes marcas paranaenses e as que sobreviveram foram vendidas ou transferiram o
comando estratégico para outros centros. Com isso, as verbas publicitárias minguaram, as agências sofreram bastante, voltei para SP (profissionalmente) no final dos anos 2000.

Durante todo este tempo, aproximei-me da ESPM, como aluno e docente, desde 1981 (sou o decano dos professores) , convidado para participar do Conselho e depois, da diretoria executiva. Sai no final de 2017, quando era Vice Presidente.”

Jaime Lerner: tempos áureos em Curitiba

Dias de novembro

A entrevista:

1) Sua experiência em marketing político é bem conhecida. Anos atrás, você foi capital no aconselhamento a nomes da primeira linha da administração do país. Por isto, uma breve análise do território em que a eleição de novembro vai se realizar no país… E com os homens públicos de hoje.

R – Trabalhei em equipes da mais alta qualidade profissional e pessoal, o que tornava meu trabalho em campanhas muito gratificantes. Sempre com análises e planejamento estratégico. Esse tipo de trabalho só pode acontecer se você está ancorado em dados e tem a confiança do comando da campanha. Foram mais de 20 campanhas majoritárias para prefeitos, governadores, de Pernambuco a Santa Catarina.

Penso que a democracia brasileira evoluiu muito a partir da redemocratização consolidando suas instituições e sistemas de freios e contrapeso, resistindo a várias crises mundiais e globais, impeachments, uma corrupção ciclópica, alternância de poder radical e vem, bravamente resistindo à visível deterioração dos quadros políticos (individuais e partidários). Sofremos ainda (com várias outras nações) a ascensão do populismo niilista que destrói a democracia por dentro.

P – Mas apesar dessas pedras no caminho, você se mantém otimista…

R – Sim, apesar disso, sou um otimista. Em 50 anos, o eleitorado brasileiro multiplicou-se por 5 e hoje, graças às redes sociais e acesso à internet, este eleitorado participa como nunca da discussão política e das eleições.

Claro que essa mesma abertura também facilita o uso criminoso da comunicação e a desordem informacional. Esse é um trabalho geracional. Assim como, no século XX, lutava-se contra o analfabetismo como primícias do estado democrático, devemos no mobilizar pela erradicação do analfabetismo digital e principalmente, pela liberdade de expressão e imprensa, único antídoto eficaz contra fake news.

P – Curitiba, na sua opinião, cumpriu o “código” essencial para eventualmente premiar à atual administração da Prefeitura? Sim ou não?

R – Se as eleições servem para premiar uma administração, veremos agora, nas eleições de 2020, se os curitibanos premiarão ou não esta atual administração.

P- Se as agências de publicidade estão sob nova realidade – nada a ver com aquelas marcas do passado, seu papel hoje menos importante ou quase desimportante -, quem vai substituí-las? Ou quem as substitui?

R – Não mudaram apenas as agências de publicidade, mudou todo o ecossistema das comunicações de marketing, a partir da atomização dos canais de comunicação, antes concentrados em poucos meios e veículos e hoje disponível para todos os anunciantes de qualquer porte. E (a maior revolução) disponível também para os consumidores. Se antes os consumidores eram meros receptores da comunicação dos anunciantes, hoje são agentes ativos que interagem com as marcas.

As agências deixaram de ser “de publicidade” para serem agentes deste processo multi-plataforma de comunicação, que cria relacionamentos e narrativas onde o consumidor é também comunicador. As vezes, estas agências ainda fazem anúncios.

Sergio S. Reis fez o convite

P- O marqueteiro político será importante nesta eleição? Como e o porquê?

R – O profissional de marketing político é e sempre foi importante. Foi ruim quando, por indigência e indulgência dos políticos passou a fazer também política. Esse verdadeiro miasma intensificou-se à medida em que o processo político (os partidos, candidatos, o ambiente) se deteriorou. É preciso fortalecer a Política para que os profissionais voltem a fazer o que sabem melhor: marketing político.

De qualquer forma, com as restrições orçamentárias e da pandemia, os bons profissionais que sabem trabalhar com marketing digital e gestão de relacionamento, serão importantíssimos, fundamentais.

P- Se tiver que coordenar o marketing político de alguém neste 2020 qual a linha mestra de seu trabalho? Pode simular linha de ação e aconselhamento que daria a um candidato a prefeito, por exemplo?

R – Como disse, não sou coordenador. Sou um pesquisador e planejador. Trabalho com dados e estratégia. O conselho que daria hoje seria gerar conteúdo valorizado e útil para segmentos específicos de eleitores e estabelecer com eles canais de comunicação e distribuição. Isso já deveria ter começado, mas ainda dá tempo. E não precisa de grandes investimentos.

P- Bolsonaro e Covid 19 serão, de alguma forma, os “grandes eleitores” em novembro próximo? Como?

R – Certamente sim, contra e a favor. O cenário polarizado poderá influir na decisão de voto de quem apoia ou é contra Bolsonaro. Os 25/30% que o apoiam provavelmente procurarão votar em candidatos identificados com ele. Os outros talvez sejam mobilizados para prestigiar candidatos que sejam contra. Mas, atenção, isso diz respeito a colégios eleitorais maiores e mais politizados.

Na maioria dos municípios, os problemas que lhes afetam diretamente (desemprego, empobrecimento) falarão mais alto. E , caso a Covid 19 continue sua marcha fúnebre na mesma intensidade, os eleitores cobrarão dos candidatos o que fizeram para minorar ou combater a pandemia.

Emmanuel Publio Dias

P – Rádio, televisão, jornal, mídias sociais, contatos pessoais: se possível atribuir uma nota de zero a 10, que notas atribuiria a cada um desses elementos na composição da divulgação de uma campanha a prefeito e vereador em cidade grandes e pequenas?

P – Nas campanhas majoritárias onde haja campanhas de rádio e tv, 10; Onde não houver (ou o candidato não tiver acesso) e nas campanhas para vereador, ações de inbound marketing e gestão de relacionamentos, 10; Nos dois casos , ações de relacionamento com a imprensa e instituições são imprescindíveis. Na verdade não existe UM caminho melhor que o outro. A estratégia campeã é a que dosa todo estes recursos de acordo com a estratégia.

P – Cite nomes de dirigentes públicos que têm se saído bem nesta pandemia e assim se creditando a bons resultados em próximas eleições.

R – Difícil pergunta porque só poderíamos responder se conhecêssemos o protocolo ideal a seguir. As dimensões e a surpresa desta pandemia ainda não estabeleceram as regras que possam medir o sucesso de uma administração. Acresce o fato de que, a nível federal, não tivemos orientação ou política minimamente organizada em que os dirigentes pudessem confiar ou seguir.

P – Espaço para outras observações suas:

Como não temos um partido ou qualquer outra força organizada de oposição (federal) fortalecida, e o presidente Bolsonaro, ao contrário e mesmo sem partido, tem um sólido apoio de uma parcela do eleitorado, as eleições municipais indicarão, além de prefeitos e vereadores, quem (ou que conjunto de opositores) estará habilitado a enfrentar o presidente em 2022.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.


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