Aroldo Murá, Jamil Snege, Carlos Alberto (Nego) Pessôa e Fábio Campana. Acervo

“Hoje, o Jamil Snege faria 81 anos. Foi o meu mestre e meu amparo quando voltei da masmorra. Abrigou-me, me levou a médicos, a um psiquiatra e cuidou para que eu voltasse à superfície depois de submerso no horror. A foto é da época em que comemorávamos os nossos dias: Aroldo Murá, Jamil, Nego Pessôa e eu. Dos tigres, só eu e Aroldo ainda estamos por aqui. Eu Ia escrever sobre o Turco, mas prefiro republicar uma crônica da Izabel, minha filha, que conviveu conosco e além de boa memória sabe narrar. Eu não faria melhor ao escrever sobre o Jamil e os amigos. Leiam”, convida o jornalista e escritor Fabio Campana.

 

Saudades do Turco

Por Izabel Campana

Não conheci humor como o de Jamil Snege. O Turco tinha mil qualidades. Da prosa afiada ao pão de abóbora. Mas o humor, da melhor estirpe, estava em tudo o que fazia. Mesmo depois do diagnóstico de câncer, Jamil não largou o cigarro ou a veia cômica. Ria muito de si mesmo e sequer perdoou de piada as marcas da própria radioterapia.

Tive a sorte de crescer com uma trupe de primeira a passar pela casa. Jamil Snege era o presidente da patota, como já disse o Professor Aroldo em perfil definitivo do Turco publicado na Ideias nº 11, em junho de 2004. Os encontros com freqüência giravam em torno dele, que se punha a contar anedotas das figuras da capital.

Literatura ambulante

Jamil era literatura ambulante. Narrava histórias com a mesma qualidade literária com que escrevia. E atuava. Imitava as figuras locais com maestria e botava os amigos a gargalhar pelas madrugadas.

Em algumas noites, o encontro era em petit comité, para uma rodada de tranca. Jamil, como meu pai, era competitivo ao extremo. Tanto que, para o carteado, a dupla nunca era formada pelos casais, a fim de evitar desentendimentos no matrimônio.

Quando o Turco pescava, ficava ainda mais competitivo. Tinha um azar sem tamanho para a pesca. Nunca pegava nada. Era quase sempre superado pelo Carlos Alberto Pessoa. Segurando a vara na mesma mão do cigarro e tendo uma garrafa de whisky sob o sovaco oposto e um copo para esvaziar na mão, o Nêgo puxava robalos em dupla da água. Enquanto isso, o Turco tinha de se contentar com um único baiacu.

Jamil passara o dia anterior a treinar arremessos na areia da praia. Separava as melhores iscas. Minutos a escolher o camarão perfeito de dentro do isopor em que ninguém podia meter a mão. Qualquer movimento brusco poderia prejudicar o desempenho da isca.

Jamil Snege

Depois de duas horas sem tirar nada e Carlos Alberto Pessoa ter pescado duas dezenas de robalos, Jamil entrou na água e passou a surrar o mar com a vara. “Mar idiota, cretino!” Emburrou-se num canto do barco e quis ir embora, ignorado pela tripulação que se divertia na pesca. Passou a ponderar que os robalos pescados pelo Nêgo eram muito pequenos e deveriam ser devolvidos ao mar. Sem sucesso. Teve de engolir os louros do Carlos Alberto naquela mesma noite, empanados em farinha de rosca.

Supersticioso, Jamil passava todos os reveillons em trânsito. Fazia de tudo para que o atraso fosse exato. Tinha de passar a virada do ano dentro do carro em movimento. Mesmo a contragosto da família e dos amigos, que o aguardavam para a festa.

 

Humor implacável

Ainda assim, não dava trégua à superstição alheia. Durante certo período, ele e o Luiz Carlos Zanoni dividiram casa. Os dois moravam na mesma república de divorciados. Numa noite, Jamil plantou guarda sob a cama do amigo com a mão metida num balde de gelo. Ao perceber que a vítima pegara no sono e com as mãos frias como as de um cadáver, apertou os pés de Zanoni, que sentou na cama aos berros por medo de assombração.

Seu humor era implacável. Os amigos, as vítimas preferidas. Botava apelidos em todos e não deixava passar nenhuma oportunidade de fazer graça dos companheiros. Se não tinha sorte na pescaria, tinha para o humor. Por azar dos outros, as histórias mais surreais aconteciam na presença do Turco.

Foi assim que, certa vez, presenciou cena das mais hilárias. Um senhor pediu autógrafo a meu pai, que concedeu, como não, cheio de vaidade. Mas a alegria não durou um instante. Apenas até ver a decepção do fã que lhe perguntou: “Mas você não é o Homem Montanha do Telecatch?”.

Antes que o confundido pudesse negar a farsa, o Jamil interrompeu as próprias gargalhadas para dizer que era sim. “E eu sou o Tigre do Líbano!”, gritava o Turco.

Izabel Campana

O Aroldo Murá era o personagem mais querido do Jamil. Contava que ao saber da visita do Professor, sempre em dieta, puxava para a frente da geladeira todos os artigos encalhados. Segundo as histórias do Turco, o Aroldo faminto dava fim até a vidros de rollmops de 1982.

O segundo personagem mais cotado nas histórias do Turco era ele mesmo. Gostava de repetir um evento surreal. Ao deixar a casa da mãe em típica tarde chuvosa curitibana, viu acenar o motorista de um carro do outro lado da rua. Não pensou duas vezes. Correu e entrou no veículo.

Cara a cara com o caroneiro, não lembrou de quem se tratava. Entrou na conversa típica do como vai e a família. Nada. A certa altura do trajeto, que já havia comandado ao amigo, tomou vergonha na cara e confessou. “Não estou lembrando o seu nome.” No que o outro respondeu: “é que você não me conhece. Dei alô para um amigo e você veio e entrou no carro”.

Aniversários na Travessa

Muitos dos aniversários do Jamil, em 10 de julho, foram comemorados na Travessa dos Editores, editora a que ele ajudou a dar cara ainda 1994. Lembro do dia em que se montou a primeira capa de O Guardador de Fantasmas. A idéia do olho foi do Jamil. Ele era genial com essas coisas, nunca preso ao senso comum.

Uma de suas histórias preferidas envolvia a foto de um ovo frito. Impossível fotografar aquela gema mal passada gordinha, pois uma vez que metia a luz sobre o ovo, murchava o amarelo todinho. Com a genialidade de sempre, o turco lançou mão da metade de um pêssego em calda que acomodou no miolo da clara em lugar da gema. O ovo mais belo de todos.

Da mesma forma se deu com a capa do Guardador. A fim de obter o brilho exato, alugaram um olho de vidro para a foto. Genial. A primeira propaganda da Travessa também foi criação do Jamil. A bela foto de uma lanterna iluminava a placa com o nome da editora.

Marcou a propaganda no Paraná

Como publicitário, marcou a história da propaganda no Paraná. A ousadia e o humor afiados destoavam do reme-reme copiado do marketing nacional. Famosa ficou a campanha em que recolheu toda a sorte de antimodelos, pessoas que tinham cara de bicho e que foram as faces na campanha de uma feira agropecuária.

Não era menos corajoso nas campanhas políticas. Aliás, as campanhas eram muitíssimo mais divertidas na capital quando o Jamil tomava parte. Desde a propaganda que fez para Tony Garcia até a noiva esmurrada que montou para Rosemeire Kredens.

Um dos adversários do Tony na campanha para o senado era o Carvalhinho. Jamil colocou no vídeo um bonsai de um pé de carvalho e uma voz que dizia: “Cresce Carvalhinho, cresce”. Carvalhinho era o adversário que não crescia nas pesquisas.

Noutro momento da campanha, transformou Tony Garcia em pugilista. Jamil gostava muito de boxe e tinha por herói Mohammed Ali. Mais tarde também acompanhou o Vale Tudo. E era torcedor nervoso de futebol. Tinha paixão pelo Atlético Paranaense e pelo São Paulo Futebol Clube.

Na mesma medida da paixão, nutria ódio pelo Atlético Mineiro e por certos jogadores, como Zinho e Bebeto. Odiava para além do futebol. Não podia ouvir falar e muito menos ouvir o cantar de Mercedes Sosa, a quem se referia como “a velha chata do tambor”.

Tinha horror, horror a Milton Nascimento. “Considerado genial porque desafinava”, dizia. Mas não se ofendam os adoradores do cantor, pois o gosto musical do Turco era duvidoso. Colecionava discos do Genival Lacerda.

Gosto televisivo questionável

O gosto televisivo também era questionável. Assistiu a todos os programas do Chaves. Não o déspota pouco esclarecido da Venezuela, o cômico mexicano. Usava uma expressão que extraiu do programa. Quando irritado, berrava: “Gentalha, gentalha!”.

Bom gosto tinha para a gastronomia. Cozinheiro de mão cheia, suas receitas iam dos pães ao einsbein. Ficou famoso por preparar os melhores sonhos da cidade e o mais bem feito filé de haddock.

Não lembro se preparava os pratos típicos de seus antepassados, parte árabe, parte italiana. De suas origens árabes, lamentava ter perdido um alaúde, herança do avô.

Cheio de idiossincrasias, em alguns dias do ano, acreditava em espíritos e coisas do além. Em outros, era um agnóstico convicto. Jamil não tinha medo de parecer contraditório.

E não tinha pretensões. Em entrevista a José Wille, em 1998, disse que o serviço militar lhe fez bem. Segundo o turco, “lhe tirou qualquer nascente arrogância que poderia ter”.

Wilson Bueno

Wilson Bueno tinha outra explicação. Em 2009, ano em que Jamil completaria 70 anos, escreveu sobre o Turco:

“Nenhum método, nenhuma pretensão com a literatura, nenhuma ambição. Talvez porque soubesse que tudo o que lhe brotava da velha Remington, na bagunça de sua pequena agência de publicidade das Mercês, já nascia clássico. E de uma arrepiante beleza.”

É isso. As histórias ficam na memória. No mundo, fica do Jamil a literatura. Cometeu, como gostava de dizer, de poesia a teatro. Texto límpido, preciso, mordaz. Foi algoz do provincianismo e da literatura barata. Na fala e na escrita, ao Jamil parecia nunca faltar palavra exata.

A mim, ao contrário, parecem agora faltar palavras. O texto me trouxe lembranças. Com ele vieram risos e agora a tristeza da falta. Me trava a garganta e já também as mãos sobre o teclado do computador. O Wilson, que também só deixou saudades e literatura, disse o que eu aqui tinha vontade de dizer.

“Turco, o melhor de nós”

“Os teus livros, estes hão de nos sobreviver a todos, porque você foi, Turco, aceite ou não, o melhor de nós, animado por uma chama a um tempo genial e diabólica. Não serão o teu enrustimento, a tua incurável timidez, capazes, garanto, de anular o que neles é alta lição da melhor arte literária, ali onde você foi, queira ou não, Turco, mestre consumado. Você sabe, também, que isto aqui não é, em hipótese alguma, um elogio fúnebre. No máximo, um preito de gratidão e de saudade…”

Então, com as palavras de outro amigo, tem fim aqui minha homenagem ao Jamil. Perdoem os que esperavam a descrição completa dos fatos da vida de Jamil Snege. Biografia redigida como quem monta um perfil da Wikipédia. Se eu fizesse isso, seria uma farsa. O que eu guardo está aí. São saudades do Turco.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.

 


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