Ex-presidente lembra grandes momentos do homem ímpar na República.
Também foi essencial, garante, para a binacional Itaipu, apesar de queixas paraguaias…

Euclides Scalco (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

Na segunda-feira, 16, Euclides Girólamo Scalco, um dos poucos nomes com direito assegurado na história do Paraná e do país, fez 87 anos.

Muitos amigos se lembraram da data. Alguns deles, componentes do Instituto Ciência e Fé de Curitiba, de que Scalco é um dos fundadores e diretor.

Vivendo basicamente para e com a família, ao lado de sua fiel guardiã, Teresinha – “minha única namorada”, como ele costuma lembrar -, Scalco recebeu cumprimentos de notável da República, ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Tive acesso exclusivo – via assessores de FHC – à mensagem em que o ex-presidente e sociólogo, em linguagem direta, pinçando momentos históricos vividos por Scalco, diz, em resumo: “É um homem notável”.

Acompanhe a manifestação de admiração do ex-presidente à vida e obra de seu ex-ministro, líder na Assembleia Nacional Constituinte, um dos codificadores do PSDB, ex-chefe da Casa Civil do Paraná, paranaense de origem gaúcha, pioneiro do Sudoeste do estado:

“UM HOMEM NOTÁVEL”

“Não me recordo precisamente quando conheci Euclides Scalco. Terá sido na década de setenta do século passado, quando comecei a me aproximar do MDB e de Ulysses Guimarães. Não importa: o que sim importa é que desde quando o conheci senti nele o traço fundamental de um político de verdade: acredita nas causas que abraça, tem coragem, é sério e competente. Vi-o de perto, nos anos da Constituinte, especialmente quando substituiu Mario Covas que era o líder do MDB e que naquela ocasião tivera que operar o coração.

PARLAMENTARISTAS

Scalco, como eu, preferíamos o regime parlamentarista, ao contrário de Ulysses, que sempre fora presidencialista. Mário Covas estava disposto a aprovar a nova forma de governo desde que a duração do mandato presidencial fosse de quatro anos a contar do início do mandato vigente.

Sarney toparia o parlamentarismo, mas queria manter-se na Presidência pelo tempo a que ele acreditava ter direito; aceitava mesmo reduzi-lo de 6 para 5 anos, com o compromisso de encaminhar a emenda que introduzia o parlamentarismo.

PERÍODO DIFÍCIL

Pois foi neste difícil período que Scalco exerceu a liderança da Assembleia Nacional Constituinte. Sempre com o pulso firme, mantendo suas convicções, mas respeitando a opinião dos demais e, sobretudo as regras. Quem decidiu a duração do mandato e a questão da forma de governo foi o Plenário da Constituinte, já então sob influência do que se chamou de “Centrão”, um agrupamento de forças com tendências variáveis, predominantemente conservadoras, mais obedientes ao Palácio do Planalto do que aos líderes de partidos.

COM AUTÊNTICOS

Scalco, como sempre, estava mais próximo dos “autênticos” do MDB, do que dos mais conservadores e muito longe, portanto, do “Centrão”.

Correspondia assim a sua origem política: católico progressista, mais tarde ligado ao PTB em sua terra de adoção — Francisco Beltrão. Em seguida, mantendo a independência que sempre o caracterizou, tornou-se figura de referência dos emedebistas mais sensíveis à democracia e aos anseios populares.

NOVO PARTIDO

Juntou-se logo ao grupo dos que, diante das divisões internas no PMDB durante a Constituinte, perceberam a necessidade de criar um partido que fosse mais homogêneo e mantivesse compromissos tanto com a economia de mercado como com as questões populares, abstendo-se de praticar atos de corrupção. As divergências internas das bancadas do PMDB na Câmara e no Senado não se resumiam aos temas acima mencionados, existiam também, senão que principalmente, nas questões sociais, como a reforma agrária, a duração da jornada de trabalho e nas concepções sobre o papel do estado na economia.

Foi por sentir-se incômodo com as divergências de posição existentes entre os peemedebistas nestas áreas que Scalco juntou-se logo de início ao grupo que propunha a formação de um novo partido. Em seguida ajudou a obter a aquiescência de Mario Covas, de quem fora vice-líder na Constituinte, para sua candidatura presidencial pelo PSDB (pois os “autênticos” do PMDB queriam-no como cabeça de chapa dos que iriam disputar dentro do partido as preferências na escolha do candidato).

ESPERANÇA DE REGENERAÇÃO

Perdemos as eleições presidenciais, mas criamos um partido novo, uma esperança de regeneração dos costumes políticos. Esta esperança vem sendo desfeita, mas Scalco não mudou suas crenças nos valores originários.

Quando me elegi Presidente, Scalco não só foi fundamental na campanha, chefiou mesmo um período dela, como logo o convidei para ser presidente da usina binacional de Itaipu: sua vida ilibada e seu rigor de princípios aconselhavam-me a indicá-lo, do que nunca me arrependi.

A título de ilustração: nas sempre difíceis negociações sobre Itaipu um dos negociadores paraguaios, certa vez, disse-me algo que tomei como elogio a Scalco: “con este Scalco es imposible trabajar. El hombre tiene obsesión por la honestidad!” Ainda bem, digo eu. Em Itaipu teve ação marcante, tanto na expansão de sua capacidade de gerar energia como na correção com que dirigiu a empresa. Logo que pude, trouxe Scalco para junto de mim, com o encargo de ser o Ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, posto no qual serviu com lealdade ao governo e ao país.

CONHECIDO POR LEALDADE

Assim foi e é Euclides Scalco: um homem notável. Independente em suas posições, é leal aos partidos a que se filia até que, ao ver dele, estes se afastam das diretrizes e valores fundamentais que deveriam guiá-los.

Não foi só à República que Scalco serviu; ao Paraná também, onde, além de haver sido eleito para exercer vários mandatos representativos, foi chefe da Casa Civil no governo José Richa. Foi e continua sendo referência política por suas qualidades: a lhaneza no trato não esconde a virtude de ser homem de princípios. Junta a ação prática à crença firme em seus valores, tanto em sua vida privada quanto na pública. É de líderes deste tipo que o Brasil necessita.”

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