Gilberto Abrão

Por Eloi Zanetti*

Segundo o IBGE, depois da etnia portuguesa, é a árabe (maioria cristã, ainda) pode ser encontrada em todos os municípios do Brasil. De Norte a Sul. Coube ao curitibano Gilberto Abrão escrever esse romance, com pitadas históricas. Imperdível, leitura obrigatória em tempos de pandemia.

Em qualquer um dos 5.570 municípios brasileiros iremos encontrar alguém com origem semita – árabe. É a única etnia, segundo o IBGE, depois da portuguesa, que está presente em todas as nossas cidades. Isto porque os imigrantes árabes espalhavam-se como mascates pelo Brasil adentro, aculturando-se com facilidade e constituindo famílias.

O maior contingente imigratório veio do Líbano e da Síria, outros da Turquia, Palestina, Egito, Jordânia e Iraque – quase todos eram e ainda são chamados de “turcos” porque os passaportes – antes da Primeira Guerra Mundial (1914/1919) -, eram emitidos pelo Império Otomano. Seja qual fosse a origem, escrevia-se nacionalidade turca. Daí a confusão.

Pequenas biografias de pessoas comuns
O escritor italiano Giuseppe Pontiggia comenta no livro “Vite di uomini no illustri” sobre a importância das biografias dos homens comuns, sem grandes feitos na vida. Acostumados a ler só biografias de figuras famosas, vamos encontrar no livro “Mohamed – o Latoeiro” de Gilberto Abrão a história de um homem comum contada na forma de romance que intercala fatos reais e ficção. A obra é uma viagem e ao mesmo tempo uma saudação aos milhares de imigrantes de diferentes partes do Oriente Médio; pessoas que por força das circunstâncias vieram para o Brasil no século passado, mas que acabaram por escolher, por amor à nova pátria, permanecer aqui.

 

Quem é Gilberto Abrão
Gilberto é curitibano, filho de primeira geração de imigrantes sírios chegados por volta de 1920. Nascido em 1943, aos 10 anos foi enviado ao Líbano para estudar religião muçulmana, cultura e idioma árabes. Seu pai era proprietário do Bar Snooker Califórnia na Praça Tiradentes, perto da Biblioteca Pública, onde Gilberto se refugiava nas horas de folga, foi daí que nasceu seu gosto pela literatura. Em 1962, alistou-se como voluntário nas Forças de Emergência das Nações Unidas para guarnecer a fronteira entre o Egito e Israel. Por ser fluente em árabe e inglês permaneceu por 14 meses na Faixa de Gaza. Ao dar baixa do Exército retornou à nossa cidade para lecionar inglês em uma escola de idiomas. No ano seguinte obteve licença para abrir uma franquia dessa escola e mudou-se para Novo Hamburgo (RS) onde também foi colaborador do jornal Zero Hora.

Um contador de histórias
A experiência da sua família é contada, ora na Síria, ora em Curitiba ou Rio de Janeiro. O personagem tem que se virar em diversas ocupações para sobreviver. Ele carrega, como todos os imigrantes que fizeram a nossa Curitiba, profundas contradições e dilemas. Traços comuns em alguém que passa de forma rápida pela transição de uma sociedade rural para uma estrutura social contemporânea, globalizada e longe do seu país de origem. Quantos ascendentes de todas as raças e origens em Curitiba não passaram por isso?

O autor escreve com maestria a saga deste homem simples e ao mesmo tempo reverencia a ancestral cultura árabe com mesclas da multirracial brasileira, seus sabores e condimentos. Além do livro sobre Mohamed ele já publicou outros sobre a mesma temática: “O mulçumano e a judia”, “O Escriba de Granada” e o “Amuleto de Leila”.

*Eloi Zanetti é publicitário, escritor e especialista em marketing

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.


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