Com a morte de Lúcia Glück Camargo, dia 20, em São Paulo, aos 76 anos, tive de fazer uma imersão no tempo. Sem saudade, mas frutífera para a composição da memória dessa que foi – junto com o jornalista Aramis Millarch – um dos dois paranaenses mais expressivos na promoção cultural em âmbito nacional no século 20. Ela, em boa parte deste século também.

Claro que nomes do Paraná de importância cultural nacional  foram muitos – como Newton Freire Maia, Dalton Trevisan, Cristovão Tezza, etc, no mesmo período. Mas Lúcia, assim como Millarch, foi sólida promotora cultural. Não era uma intelectual, mas academicamente bem formada.

Curiosamente, Aramis e Lúcia, no final da vida dele, eram desafetos dedicados.

 

Tiroteio

Millarch, principalmente, destinava à também jornalista impropérios. Ela unia-se a gente como Rafael Greca para enfrentar o tiroteio de Aramis, então centrado especialmente na coluna Tablóide que ele escrevia em O Estado do Paraná. Sem contar as dezenas de veículos para os quais colaborava.

Por ser padrinho de casamento de Aramis e Marilena, e ter começado com ele, no mesmo ano, no jornalismo impresso (1960), me afeiçoei mais ao Milarch. Mas sempre me dei bem com Lúcia, que conhecia ainda como – apenas – Lúcia Gluck, moradora numa confortável casa de sua família na nobre Rua Carlos de Carvalho.

Lucia Camargo – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Miguel Arcanjo

 

Liderança

Essa Lúcia que conheci como apenas Gluck, em 1963, já era líder, tinha enorme capacidade de aglutinar pessoas em torno de seu projetos. Era uma mestra na arte de ouvir, dava atenção a cada interlocutor de tal maneira que ele se sentia satisfeito com a interlocução.

 

Roberto Requião

Naquele endereço, Lúcia Gluck formou um “guruato”, comandando um grupo amplo de parte da burguesia intelectual da Curitiba de então, como Roberto Requião de Mello e Silva e seus irmãos. Esses futuros políticos “donos futuros do Paraná”, mais um grupo de estudantes matogrossenses, formaram um escola liderada por Lúcia: discutia –se de política, a ditadura que se insinuava, religião (de preferência criticando padre Emir Caluf, um representante da direita católica) e o governo de Jango (que o pessoal defendia), sem esquecer de pixar Ney Braga.

Roberto Requião, Martha Suplicy e Aramis Millarch. Fotos: Veja e Acervo pessoal

 

Na faculdade da UCP

Depois, cruzei com Lúcia Gluck Camargo na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica do Paraná (hoje PUCPR), onde eu e ela nos formamos, em anos diferentes, em Jornalismo. O que posso testemunhar é sobre a mensurável capacidade de Lúcia fazer-se presente com sua palavra, sua liderança, sua habilidade administrativa em eventos culturais do estado.

Assim, foi aproveitada no Guaíra, na Fundação Cultural de Curitiba, na Secretaria Estadual de Cultura e depois ganhou o país, em cargos como a direção artística do Teatro Municipal de São Paulo. Entre outras posições de relevo.

 

Não arredava pé

Se era competente, Lúcia Camargo era também obstinada, dificilmente arredava o pé de suas convicções. Era uma cristã, por exemplo, com simpatias à Teologia da Libertação. E nunca se furtou de trabalhar com a
chamada “direita” – com Greca e Lerner -, assim como com Martha Suplicy.

O que posso testemunhar é que Lúcia foi importante nessa equação complicada do jogo das políticas públicas de governos. Mas ela soube “tourear” muito bem os donos do poder e impôs sua marca por onde passou.

Salve a Lúcia Gluck Camargo.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.

 


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