Ministro foi rejeitado por Lula, que o chamou de “basista”, mas apoiado por Gilmar Mendes

Edson Fachin: vencendo batalhas

 

Um dos mais interessantes e instigantes livros gerados nos últimos dias no país é Os Onze – o STF, seus bastidores e Suas Crises, de autoria de Felipe Recondo e Luiz Weber, jornalistas, edição da Companhia das Letras.

Já é Best seller em qualquer levantamento de livros mais lidos. E com justa razão.

Trabalho de pelo menos 10 anos de investigações e entrevistas, faz uma radiografia ampla – e muito bem escrita, certo – do que se passa no Supremo Tribunal Federal, mais ou menos a partir do julgamento do Mensalão.

O livro é uma lição perfeita de jornalismo investigativo e texto primoroso, acredito que na linha de um certo new journalism. Se é que posso defini-lo assim, com a licença dos acadêmicos…

PSICOLÓGICO

Se bem que a obra deambula por outros períodos, além do Mensalão (como a Lava Jato) pela corte.

É particularmente um grande exercício de Psicologia para que se entenda o que vai na cabeça de 9 homens e duas mulheres que compõem o supremo.

Do ponto de vista de informação jornalística, nada se perde no livro, recomendado especialmente àqueles que querem entender o Brasil a partir de suas excelências e suas filigranas – e data vênias – jurídicas. Ou, ainda, pelas poucas inovações que o tribunal gerou nestes últimos anos, como a implantação da TV Justiça, uma novidade brasileira que o mundo admira (até que enfim, uma qualidade a gerar boa crítica).

Se bem que a Tv Justiça não mostra preciosidades, como aquela ameaça de Luiz Fux a Gilmar Mendes, de que iria “quebrar-lhe a cara”. Feita em certa ocasião.

LONGA JORNADA

Nesta primeira abordagem, impossível não registrar as muitas páginas que o livro de Weber e Recondo dedica à árdua batalha que o paranaense Edson Fachin empreendeu para ser o escolhido ministro em 29 de junho de 2015, quando herdou a relatoria da Lava Jato e a delação da JBS.

Não é exagero dizer que o ministro Fachin comeu o pão que o diabo amassou.

Por um lado, grupos à direita, o acusavam de ser petista e de ter feito campanha pró Dilma. Além de ser também defensor do MST, diziam, na tentativa de obstar a caminhada desse gaúcho que o Paraná adotou há muitos anos. Outros, dentro do PT, como a própria Dilma, o recusavam (a princípio).

Professor de Direito de ampla e irrestrita competência, com reconhecimento nos meios jurídicos do país, o advogado Fachin foi sinal de contradição, aponta a “memória” escrita pelos dois jornalistas.

GEARA E ALVARO

Assim, se teve em Curitiba o apoio de notáveis como Richa, Gláucio Geara e boa parte do mundo empresarial, e igualmente do senador Alvaro Dias – que jamais poderá ser acusado de esquerdismo -, foi de alguma forma humilhado pelo ex-presidente da Câmara, o condenado malversador de recursos públicos, Eduardo Cunha. Esse cidadão repugnante (minha opinião) chegou ao desplante de marcar um encontro com Fachin à meia noite, para ele apresentar seus pleitos com vistas ao STF.

O encontro não aconteceu, diz o livro.

APOIO DE MENDES

Mas outro, mais importante, e revelador da enorme habilidade do mestre Fachin foi com o ministro Gilmar Mendes, do STF, que o recebeu para acolher seus petitórios de apoio. O curitibano estava com a esposa, a desembargadora Rosane, altiva, como sempre.

Mendes, um ser aparentemente de mal com o mundo, tratou bem a Fachin, deu telefonemas, pediu que outros notáveis o apoiassem para o STF.

Os dois se dão bem no STF.

ALÉM DE FLORES

Mas nem tudo foram flores na caminhada exaustiva de Fachin em Brasília:

a imprensa revelou que ele apanhara carona no avião de Saud, operador da JBS.

Claro que o professor e agora ministro não assumiu compromisso com o dono da carne e seus prepostos, prova clara em seu comportamento posterior no supremo.

“UM BASISTA…”

Os vetos a Fachin, relata ainda o livro, incluíam um quase de anátema de Lula, o ex-presidente, para quem Fachin seria “um basista, uma loucura”, um ser inconfiável.

Por basista, leia-se: Fachin seria manobrado por movimentos sociais, alas da Igreja Católica e sindicatos.

Sem contemplação, Lula teria cravado que quem podia operar movimentos sociais na política era apenas ele, “pai do PT e dos brasileiros”, como o identificam alguns prosélitos seus.

(PROSSEGUIRÁ)

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