“Mostro diariamente aos alunos o poder de ferramentas simples de corte, e que podem ter plena participação na marcenaria prática.”
Os aprendizes são profissionais liberais em busca de dominar técnicas artesanais da arte em madeira, na escola Coisas da Madeira, de Niterói, RJ.

Conheci Diego, filho do professor e artista plástico Cleto de Assis, ainda pequeno, irrequieto e sempre curioso. Levado pelos fados familiares para outras localidades, perdi contato físico com ele, mas acompanhei o seu desenvolvimento profissional a partir do interesse pelas artes plásticas, já demonstrado nos bem delineados primeiros desenhos.

Cleto e Diego de Assis, pai e filho na senda comum das artes plásticas

Hoje ele vem a Curitiba para visitar seus pais, principalmente nas festas de fim de ano, dedicado que está a sua escola de marcenaria denominada Coisas de Madeira, em Niterói, RJ.

Designer formado pela UFRJ, realiza um trabalho quase solitário, que tem encontrado eco na alma de profissionais liberais de vários setores, ansiosos por dominar técnicas artesanais da arte em madeira, que pouco a pouco perde importância laboral, devido ao domínio das máquinas. Dirigi a ele, neste final de 2019, algumas perguntas, cujas respostas vão aqui a seguir:

PÉ VERMELHO E LUTHIER

1) Diego de Assis, quem é você?

Nasci em Londrina, em junho de 1973. Vivi algum tempo em Curitiba e Brasília, depois no Rio de Janeiro, onde me formei em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também frequentei o curso de História da Arte, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Faculdade de Educação, UERJ). Em paralelo, participei de alguns cursos livres, como o de luthier de violões, com Fernando Bernardo, e de tornearia, com Thomaz Brasil. Por 15 anos trabalhei com marcenaria sob medida, em oficina particular. Comecei a lecionar em 2003, a convite do SENAI, como Instrutor de Marcenaria e Lutheria, na Refinaria de Manguinhos, no projeto social Usina de Cidadania. Foram seis anos de atividades com as comunidades vizinhas à refinaria, o que determinou minha predileção como educador. Com a extinção do projeto decidi, em 2009, montar uma pequena escola particular em Niterói, onde atualmente moro. De forma surpreendente, a procura foi imensa, não faltando alunos nos últimos quinze anos.

VOCAÇÃO E DNA FAMILIAR

2) Por que Design?

Meus pais são artistas plásticos, minha mãe (Nádia) dedica-se à pintura e meu pai, também pintor, tem uma atuação bastante grande como designer gráfico. Creio que a vocação, portanto, foi hereditária. Sempre me identifiquei com este universo, cuja influência foi determinante para meu projeto de vida.

Na adolescência, comecei a me interessar por marcenaria, em princípio pelo fascínio que a madeira provocava, pela estética e variedade de suas espécies, e pela história que agrega, em todas as culturas. O design surge com as necessidades técnicas que o seu trabalho demanda.

Em determinado momento, descobri que a estética se erguia através da função dos objetos. O designer deve estar atento às necessidades físicas e ergonômicas, atento ao funcionamento dos objetos que cria, atento ao ambiente e à arquitetura que irá abrigar seus móveis e utensílios. Vejo o design como uma atividade científica, estreitamente relacionada às artes, tendo como resultado um objeto funcional, desde a devida utilização dos materiais, do seu processo de fabricação e adequado uso de ferramentas, onde a estética surge para completar todo o conceito.

PODER DAS FERRAMENTAS

3) Em um mundo tecnológico, a marcenaria, como hobby, não perde para as máquinas?

É exatamente o oposto: as máquinas são essenciais para indústria, mas não para o hobista. Refiro-me à redescoberta de antigas tecnologias.

Mostro diariamente aos alunos o poder de ferramentas simples de corte, e que podem ter plena participação na marcenaria prática. Este é um conceito interessante, pois a marcenaria pode ser “impraticável”, quando se utilizam apenas ferramentas manuais, ou “prática”, quando se utiliza todo o tipo de tecnologia disponível, inclusive algumas antigas.

Mostro que os equipamentos elétricos não precisam substituir os equipamentos manuais. Ao contrário, com alguma habilidade de uso e manutenção das ferramentas manuais, elas podem ser tão essenciais e precisas quanto as ferramentas elétricas, as chamadas power tools.

Em nossa sociedade de consumo, num mundo tecnológico, temos a falsa impressão de que as últimas tecnologias são as melhores, mas isso nem sempre ocorre. Outro fator importante é o propósito de uma construção.

Digo que é mais fácil “comprar pronto” quando se deseja apenas o objeto.

O hobista busca mais que isso: ele quer fazer algo por conta própria, com suas próprias mãos, não importa o quê. O processo de fabricação manual é recheado de valores agregados. Meus alunos buscam qualidade de vida, sobretudo. O exercício físico, o silêncio do corte, a afiação das facas: são pequenos exemplos que levam o sujeito ao prazer do trabalho essencialmente manual.

PERFIL DOS ALUNOS

4) Qual o perfil de seus alunos?

A grande maioria dos que procuram a minha escola, chamada Coisas de Madeira, é formada de profissionais liberais, de várias áreas. Recebo com frequência arquitetos, médicos, profissionais de TI, professores, designers, dentistas, advogados, professores. Ou seja, não há um critério diretamente relacionado às suas atividades principais – cada aluno tem sua própria intenção e planejam a sua própria desenvoltura, a partir de orientações básicas. São pessoas que pretendem montar a sua oficina em casa, e eventualmente profissionais que querem aprender determinadas técnicas de construção ou, simplesmente, construir um objeto ou móvel para seu próprio uso.

DURAÇÃO DO CURSO

5) QUANTO DURA O CURSO BÁSICO DE MARCENARIA?

Trata-se de um curso livre, com tempo indeterminado. Mas recomendo que o aluno o frequente pelo menos por seis meses, para uma capacitação mínima, o que corresponderia a um nível básico. E tenho comprovado ótimos resultados com dois anos de frequência, mas isto dependerá da desenvoltura do aluno. Os alunos que possuem a sua própria oficina se desenvolvem com maior velocidade, com a prática doméstica do que é aprendido em aula. Uma aula por semana, de duas horas e meia de duração, é mais que suficiente para o desenvolvimento de tarefas em oficina própria.

Procuro manter um ambiente de aprendizagem permanente, a partir de conhecimentos básicos sobre materiais e ferramentas e prática cuidadosa de algumas técnicas básicas, que vão desde o planejamento até o acabamento do objeto, passando por noções de ergonomia, medições, escolha correta do material e das ferramentas, cortes, encaixes. Esta é a diferença entre ambiente de aprendizagem e orientação puramente teórica.

MÉTODO CARTESIANO

6) COMO É DESENVOLVIDO O CURSO?

Quando me perguntam qual o método utilizado em Coisas de Madeira, respondo prontamente: o método cartesiano. Ou seja, um passo de cada vez. Uma das funções mais importantes do instrutor é cuidar do desenvolvimento progressivo do aluno. Para todos, começamos com exercícios de encaixe, desde a retificação da madeira bruta, utilizando apenas ferramentas manuais.

As ferramentas manuais têm uma importância didática naquele momento, pois o aluno tem que conformar cada ângulo reto de sua peça, sem a facilidade que uma máquina elétrica traz – mais importante é o desenvolvimento de sua percepção visual e espacial. Também é interessante notar que não há atalhos; cada etapa do processo de fabricação tem que ser plenamente cumprido, o que estabelece um tempo, uma disciplina para cada aluno. Após os exercícios de encaixe – que equivale geralmente a quatro aulas – iniciamos o primeiro projeto, que deixo à escolha do aluno, com a apresentação de diversos manuais de marcenaria.

Tenho, à disposição de todos, uma razoável biblioteca especializada. É claro que, algumas vezes, faço sugestões, pois é importante iniciar com projetos fáceis, que estão ao alcance do aluno inexperiente. E, de acordo com os objetivos de cada um, construímos um roteiro particular, seja com a adoção de projetos prontos ou com a criação do projeto, desde o desenho técnico ao acabamento. Atendo até três alunos por horário, o que torna o curso mais interessante, pois o aluno acompanha projetos diferentes ao seu.

USINA DE CIDADANIA

7) Você citou, inicialmente, sua experiência em um curso na refinaria de Manguinhos, dedicado aos moradores da comunidade do entorno da empresa. Quais foram os resultados e por que o curso foi descontinuado?

O projeto Usina de Cidadania oferecia diversos cursos alternativos para jovens e adultos. Era um projeto incrível, que dava muitas possibilidades de crescimento às pessoas que vivem no entorno da refinaria, muitos em favelas vizinhas. Certamente influenciou e determinou a profissão de muitas pessoas, mas havia uma falha, no que dizia respeito ao curso de marcenaria: a descontinuidade do que havia sido aprendido. São motivos variados, mas o principal era a impossibilidade de os alunos adquirirem equipamentos para montar as suas próprias oficinas. Então, após dez meses de curso, com muitas dificuldades, alguns alunos conseguiam, com muito sacrifício, montar a sua própria oficina, mas não a maioria. Quando percebi este resultado frustrante, reivindiquei à direção da refinaria um horário onde os alunos formados pudessem utilizar a oficina para gerar renda, o que não ocorreu, pois não havia interesse por parte da empresa. Embora houvesse este limite, não posso julgar mal a refinaria, pois estaria sendo muito redutor.

Seja como for, foi uma grande oportunidade para muitas pessoas, inclusive para mim, pois considero este o período em que me formei como educador, com a ajuda de mais de uma centena de pessoas que participaram deste projeto, como meus alunos. Na composição do curso, sobressaiu a construção de cavaquinho, instrumento musical mais íntimo da população carioca. Registramos obras perfeitas saídas de mãos idosas, a princípio titubeantes e imprecisas, mas que terminaram seu trabalho com esmero quase profissional.

EXPERIÊNCIA NA AMAZÔNIA

8) Há, em seu blog, um registro sobre uma experiência desenvolvida na Amazônia, junto a artesãos locais. Como isso ocorreu, com você trabalhando em Niterói?

Em 2011, fui convidado por pessoas que tomaram conhecimento de meu trabalho, via Internet, para desenvolver um workshop para lideranças de sete comunidades ribeirinhas localizadas próximo a Santarém (PA), na Reserva Extrativista Tapajós/Arapiuns, em Surucuá. Comunidades que participam das OCT – Oficinas Caboclas do Tapajós, projeto assinado pelo IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.

As OCT desenvolvem movelaria artesanal que expressa a cultura tapajônica, em bancos zoomorfos, no aproveitamento das formas naturais dos troncos e no uso de diversas espécies nobres de madeira. Em princípio, o propósito seria um acompanhamento técnico, para possíveis melhoras em seu processo de fabricação. Reparei que uma das dificuldades estava relacionado ao transporte dos móveis, boa parte destinada a exportação. Tive a ideia de ensinar a confecção de roscas de madeira, que poderia ser adaptado nos pés de bancos, mesas e cadeiras, até então simplesmente encaixados. No entanto, os recursos técnicos eram escassos: tudo se fazia manualmente, sendo a principal ferramenta a enxó. Notei que havia uma certa manutenção destas condições, com o propósito de evitar uma “industrialização” e a perda do contexto artesanal deste trabalho. Na verdade, esta era uma confusão imaginada pelos antropólogos e demais envolvidos neste projeto, criticado por mim neste aspecto. Com relação aos artesãos, gente humilde e pouco instruída, mas que conhecia as madeiras locais e as técnicas básicas de aproveitamento dos troncos e seu desdobramento, não houve qualquer dificuldade de aprendizado.

Eles usam diversas espécies nobres de madeira da região, como a Sucupira amarela (Bowdicha nitida), o Jacarandá do Pará (Dalbergia spruceana), o Cumarú preto (Dipteryx odorata) e a Muirapixuna (Chamaecrista scleroxylon). A extração das madeiras é devidamente manejada e licenciada, e troncos mortos também são aproveitados. A técnica de confecção de roscas foi desenvolvida com adaptação de algumas ferramentas já em uso, sem sofisticações. Eles rapidamente notaram que a rosca, em lugar do simples encaixe, facilitava a montagem dos bancos e o seu transporte. Acredito que houve um bom resultado, com agregação de novas técnicas no caldo cultural local, sem qualquer desrespeito à artesania tradicional, devido sobretudo ao empenho das lideranças que se beneficiaram e a genuína vontade de multiplicar o que foi aprendido naquela oficina de trabalho.

PROJETOS PRÓPRIOS

9) Seus alunos desenvolvem seus próprios projetos ou utilizam desenhos de outros autores?

As duas possibilidades, mas todas a seu tempo. No início do curso, geralmente adotamos projetos prontos, pois este é o momento de adquirir “ferramentas de conhecimento”, ou seja, preparar o aluno para a realização de um projeto próprio. Sempre que possível, buscamos projetos de autores conhecidos, o que agrega muito valor ao exercício do aluno.

No entanto, temos todo o cuidado para não ferir os direitos autorais, seja de quem for. Não existe projeto “da Internet”: alguém deve levar o crédito. Como exemplo, recebi, há alguns anos, um casal de arquitetos que queriam reproduzir a cadeira Pelicano, de Michel Arnoult, arquiteto francês formado no Brasil, onde foi aluno de Oscar Niemeyer. Então, entrei em contato com Annick Arnoult, filha de Michel. Sua resposta ao nosso pedido não poderia ter sido melhor: “Diego, se o meu pai estivesse vivo, ele adoraria a sua proposta.” Tempos depois, ela visitou minha escola e hoje me orgulho em dizer que somos amigos. Tenho sua permissão para reproduzir os móveis de seu pai para fins didáticos, trazendo, de forma viva, o trabalho de Michel Arnoult para nossa oficina, num mobiliário com identidade brasileira, de comprovado bom gosto. Neste aspecto, todos saímos ganhando, mas nem todos os autores pensam assim, pois já tivemos respostas negativas. E eu, como designer, “aproveito” meus alunos para desenvolver meus próprios projetos ou em parceria com eles, o que torna tudo mais interessante. Mas não deixamos de utilizar autores clássicos, principalmente da movelaria moderna, cujos desenhos já estão, na maioria, classificados como de domínio público.

Para ler a coluna completa do Blog Aroldo Murá, clique aqui.