O maestro do sistema de transporte, peça essencial da equipe de Jaime Lerner, e Oksana Boruszenko, historiadora e referencial da imigração ucraniana, foram levados pelo “Anjo da Morte” no sábado e domingo.

Jaime Lerner, Carlos Eduardo Ceneviva e Rafael Dely: ‘trindade santa’

Curitiba viveu um fim de semana de susto para os que valorizam nomes de homens e mulheres que fizeram sua história contemporânea. No domingo, 5, morreu o arquiteto Carlos Eduardo Ceneviva, inseparável da grande revolução urbana implantada no começo dos 1970 por Jaime Lerner na cidade; na sexta, 3, a historiadora Oksana Boruszenko, da UFPR, um dos referenciais da cultura ucraniana no Novo Mundo, tão importante que fazia parte do restrito grupo de redatores da Enciclopédia da Ucrânia, editada em Kiev pela Academia Ucraniana de Ciências. Era doutora em História pela Universidade de Winnepeg, Canadá e autora de estudos sobre a imigração ucraniana no Brasil.

Sobre Ceneviva é essencial resumir sua obra dizendo:

Tudo que temos de importante no sistema de transporte em Curitiba tem a marca e a identidade de Ceneviva: dos expressos aos ligeirinhos, das estações tubo aos terminais, à integração dos ônibus intermunicipais.

Recomendo a leitura do depoimento de Ceneviva dado à série de livros de que fui editor, ‘Memória da Curitiba Urbana’, edição IPPUC, 1998.

RIQUEZA UCRANIANA

Bem cedo, no sábado, José Welgacz, que por anos dirigiu organismos de associação da comunidade ucraniana paranaense, me escrevia: “A Professora Oksana Olga Boruszenko faleceu no dia de ontem, sextas, 3, às 19:30. O velório será realizado na capela 4 do Cemitério Parque Iguaçu em Curitiba a partir das 09:00 de sábado 04/01/2020, e o sepultamento às 10:00 de domingo 05/01/2020.

Completou Welgacz:

MUITO ATIVA

“A Professora Oksana Boruszenko foi uma ativa é importante participante da comunidade ucraniana brasileira. Presidente da Organização Feminina da Sociedade Ucraniana do Brasil e Secretaria da Representação Central Ucraniana Brasileira. Memória eterna.”

FOI PERSONAGEM

Oksana, uma intelectual de grande em envergadura, que foi personagem de meu livro Vozes do Paraná 3, foi diretora do Patrimônio Histórico e Cultural da cidade de Curitiba, nos anos 1990.

Durante a gestão da Oksana foi construído o Memorial Ucraniano, no Parque Tingui.

Dentre os estudos que deram notoriedade a Oksana, estão trabalhos universitários que desenvolveu sobre as imigrações no Paraná, com relevo para a ucraniana.

“OBRA IMENSA, ALMA HUMILDE”

Sobre Carlos Eduardo Ceneviva, o jornalista Jaime Lechinski (que um jornal local chamou de arquiteto e de sócio do escritório de Jaime Lerner, duplo equívoco) escreveu o que segue, com suas bordaduras poéticas, marcas desse pensador responsável por ter passado para o papel as melhores definições do urbanista Lerner:

“Alma gentil, tímido e humilde, parecia não se dar conta da dimensão de sua obra. Só após alguma insistência é que se dispunha a falar de sua notável trajetória, mas não era necessário qualquer esforço para extrair dele sugestões e considerações sobre o transporte urbano, generoso que era com a ideia de melhorar a qualidade das nossas cidades”, escreveu em homenagem pública neste domingo (6) o jornalista Jaime Lechinski, que acompanhou todo o desenvolvimento urbano de Curitiba a partir de Jaime Lerner, de quem foi secretário de Imprensa.

SABIA EMPINAR

Lechinski, poético, diz ainda em sua página no Facebook: “Como nas pipas que gostava de criar e tão bem sabia empinar, ou na sinuca que jogava com mestria, Ceneviva sabia dos movimentos da cidade, seus caprichos, seu timing, suas demandas e vocações.”

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A SANTA TRINDADE CURITIBANA

Observador que fui – muitas vezes in loco – da grande transformação urbana realizada em Curitiba no começo dos 1970 por Jaime Lerner e sua equipe, uma delas a criação da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), de que Lerner me fez membro de seu primeiro conselho deliberativo, guardo lembranças muito fortes de Ceneviva.

Numa dessas lembranças, em contatos jornalísticos, houve a viagem a Caxias do Sul, quando, a convite dele e de Rafael Dely fui reportar para jornal Diário do Paraná a entrega do primeiro ônibus expresso (pela Randon), o “vermelhão”, que dias depois estaria estreando nas canaletas curitibanas.

O encontro histórico foi igualmente registrado por outros jornalistas, como Luiz Júlio Zaruch e Celso Nascimento.

Sempre acompanhado de sua inseparável Eponina, uma ex-campeã de vôlei, Ceneviva era presença fortíssima na equipe de Jaime Lerner, que, no domingo, deixou seu repouso para despedir-se do amigo, no velório.

Costumo dizer que Jaime Lerner, o gênio mundial da criação urbana, teve duas seivas vitais e fidelíssimas a acompanhá-lo na revolução que promoveu, levando ao mundo a maneira curitibana de ser cidade compromissada com o futuro.

Uma das seivas, Rafael Dely, que nunca será suficientemente louvado e lembrado, mola mestra – com Ceneviva – na arte-desafio de apresentar respostas às concepções de Lerner.

Lerner, Dely e Ceneviva, fizeram uma espécie de “santa trindade curitibana”, ao aceitar o desafio de exorcizar o cognome de “aldeia sinistra, cidade sitiada” que até então identificava a urbe.

Para ser justo, já que nominar outros nomes inseparáveis daquele romper da aurora dos 1970. Dentre eles Abrão Assad, Lubomir Fiscinski, Angel Bernal, Cássio Taniguchi, Jaime Lechinski, Fanchette Rischbieter…

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