Até os anos 1960, mais precisamente até 1964, a foto de um presidente da República cercado de “autoridades eclesiásticas” em paradas cívicas era coisa muito comum. Os áudios, como os da antiga Voz do Brasil, martelavam: – “O excelentíssimo senhor presidente da República estava acompanhado de altas autoridades, civis, militares e eclesiásticas”.

Presidente Bolsonaro, Edir Macedo, Silvio Santos e Iris Abravanel

 

Depois de o movimento militar ter-se transformado em ditadura militar, essas ‘autoridades eclesiásticas’– então cento por cento católicas, pois outras igrejas não contavam -, o jargão e as fotos identificadoras desse cordão umbilical foram desaparecendo.

OPOSIÇÃO PESADA

Até porque a maior parte dos bispos e padres acabou fazendo oposição cerrada ao Governo Castello Branco e aos que o sucederam. Especialmente nas questões associadas a direitos humanos, às questões de liberdades públicas, contra as torturas políticas… Um trabalho feito com a OAB como parceira preferencial.

CAPILARIDADE

Com enorme capilaridade mundial, a Igreja acabou comprometendo internacionalmente o regime que durou até 1985.

Depois desse flash histórico, em que entra o episódio da Marcha Com Deus pela Família, e as oposições da CNBB aos militares, passei no domingo bom tempo acompanhando o noticiário impresso e digital da Parada de Sete de Setembro em Brasília.

NÃO ME ESPANTA

Não me espantei: o presidente, que se diz católico, mas não se mostra em nada ligado à Igreja, estava lá mesmo, sobranceiro, feliz, ao lado de dois “Papas” da mídia popular: o bispo Edir Macedo, dono da TV Record e pontífice máximo da Igreja Universal do Reino de Deus; e Silvio Santos, eterno dependente do Planalto Central e a qualquer governo. Foi amigo dileto de Lula e Dilma, FCH, Collor, Sarney, Temer…

MAGNATAS

Macedo, no caso, enfeixou dois fortes motivos para posar ao lado de Bolsonaro: como “autoridade eclesiástica” e magnata de uma rede de TV que dá amplo apoio ao Governo.

OUTROS “SÓCIOS”

Mas havia outros “sócios do Altíssimo”, como, desrespeitosamente diz um amigo meu, EC.

Lá estavam também o bispo do Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra (de forte classe média), e R.R. Sores (cunhado de Edir, com quem está rompido, fundador e “papa” da Igreja Internacional da Graça).

ORDINÁRIO MILITAR

Por acaso, vislumbrei, certa hora, um bispo católico (de óculos escuros), em segundo plano. Era o arcebispo dom Fernando Guimarães, redentorista, autoridade máxima do Ordinariado Militar do Brasil, cuja sede é Brasília. Ele só obedece ao papa. É alguém que, até por ter patente de coronel (acredito) precisa mesmo ir a desfiles pela Pátria.

NOVOS NO PODER

Mas o chamado Ordinário Militar não deve obediência ao cardeal de Brasília, dom Sergio Rocha, que nem se sabe se foi convidado para o evento.

O certo é que a leitura das fotos e dos filmes de TV expõe claramente novos tempos no universo da antropologia religiosa brasileira.

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