Dino Bronze de Almeida, catarinense da minúscula Papanduva, filho de um líder político local, filho de uma classe média sólida (nem alta, nem baixa, mas expressiva para padrões do interior) soube captar como poucos a alma daquela Curitiba então vivendo um grande “intermezzo”, identificado a partir dos 1960: a cidade começava a se verticalizar, tinha não mais que uma dúzia de prédios altos, e a ela se ampliavam diárias migrações do interior rural, sobretudo do Norte do Paraná.

Das marcas mais expressivas da cidade eram os tiques provincianos da Capital, isso apesar de ela conter uma elite muito bem educada, boa parte com formação em Europa, sob influência de França. O melhor exemplo desses requintes de uma elite persistente eram os colégios que abrigavam “as melhores moças de nossa sociedade da época”, como me observa uma anciã, ex-catedrática da UFPR.

 

Cajuru e Sion

Os colégios de primeira linha da provinciana cidade eram os formadores de moças da classe alta, muitas oriundas do interior do Estado, que se recolhiam aos internatos do Notre Dame de Sion, e o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, o chamado “Cajuru”. Os dois tinham externatos que abrigavam a fina flor das classes média e da alta burguesia da cidade.

O clima desses espaços era europeu, e o francês, a língua dominada à perfeição, o sinal de seres humanos “racées”.

Acho que Cassiana Lícia de Lacerda passou por um deles. Tenho certeza de que minha amiga Adalice Araújo, filha do patriciado de Ponta Grossa, e nosso mais respeitado nome na crítica de artes plásticas, fez muitos “ramalhetes espirituais” no Sion. Assim como a jornalista Maí Nascimento Mendonça – autora de livro seminal, “Os Franceses no Paraná” – captou toda a anima do Cajuru, por onde passou.

Local da antiga Galeria Cocaco

Ciclos econômicos

Voltando ao “intermezzo” percebido por DA como enorme janela de oportunidades para sua vida, é preciso dizer que esses adventícios vieram mesmo para ficar. Não tiveram dificuldades para se fazer presenças novíssimas na paisagem antes dominada pelos herdeiros do ‘velho Paraná’, legatários da erva mate e da madeira, ciclos econômicos.

Dino, inquieto, mesmerizado pela cidade que ele considerava grande, pressentiu cedo, ao mesmo tempo, que “aqui é meu lugar”, como me confessou certa feita entre um uísque e outro (sou abstêmio há 30 anos).

A chegada do futuro colunista, com poucos apoios familiares na cidade (um deles, o primo Nereu Maia Toniatti), não chamou atenção do entorno, pois, afinal, as mudanças estavam acontecendo todos os dias. DA era apenas parte de um grande ordenado êxodo que achara Curitiba ser seu Eldorado.

Cassiana Lacerda

Os “catarinas”

“A chegada dele foi a de apenas mais um catarina”, observa-me um velho amigo de DA, lembrando que a mudança de Dino para Curitiba estava mais ou menos no tônus daqueles dias: “catarinas” mudavam-se aos milhares, todos os anos, vinham para fazer a América, em busca de horizontes, despedidos da vida rural e do hiterland sem oportunidades e horizontes.

Com eles, se inauguravam céleres mudanças na paisagem humana e, portanto, cultural de uma Capital ainda provinciana, mas com sólidas aspirações a metrópole. Cidade que se orgulhava de Bento Munhoz da Rocha, Andrade Muricy, Themístocles Linhares mas temia expor-se, até porque enfrentava apelidos maldosos, como “aldeia sinistra”, tal como muitas vezes me lembrou José Baraúna de Araújo, parte dos curitibanos “baús”.

 

Maí Nascimento Mendonça

Depois, Carlos Jung

Dino Almeida percebeu que havia muito espaço sobrando para seus sonhos, tal como aconteceria, cinco anos depois, com outro catarinense – Carlos Eduardo Jung, natural de Mafra – que também entraria no jornalismo, fazendo, de início, reportagens gerais, e depois se firmaria como colunista de sociedade no então importantíssimo jornal O Estado do Paraná, sob o comando de João Feder e Mussa José de Assis.

De Carlos Jung me ocuparei em futuras colunas. Ele, ao contrário de DA, cujo modelo de colunista social era Ibrahim Sued, o ex-fotógrafo pobre e da periferia carioca, filho de imigrantes sírios, com vagas noções de francês que ele fazia questão de mostrar, adotou padrões de “um novo colunismo social” inaugurado no Jornal do Brasil pelo histórico Zózimo Barroso do Amaral.

Zózimo fez colunismo de notas apimentadas e uma nova linguagem, gerando frequentes furos jornalísticos, muitos admiradores e também inimigos “dedicados”. Tinha muito de Gay Talese, um pouco de Capote com esse chamado novo jornalismo.

Colégio Sion

 

Ibrahim, o modelo

Verdade é que Dino, naqueles dias de comunicação de massa ainda limitados a programas de televisão que dependiam de novelas e programas nacionais que aqui chegavam em malotes, de avião, em latões contendo videotapes -, percebeu que Ibrahim seria seu melhor paradigma.

Assim, a sequência de promoções e valorizações de personagens de DA, o tempo mostraria, seguia a linha Sued. Exemplo seriam as “Dez Mais Elegantes”. Os empresários ainda não estavam “na moda” para a imprensa.

Sem preocupações cronológicas, mas também sem desnortear o leitor desse breve perfil de DA, recordo que ele era um encantado pela ideia de reeditar o sucesso da revista Club, pela qual, com ele, fui introduzido ao jornalismo e o acompanhei depois no Diário do Paraná.

Num rápido retorno à revista Club, como exemplo de quanto era forte a intuição de DA para nomes femininos que teriam papel capital na vida de Curitiba, lembro que na capa do primeiro número de Club ele colocou Terezinha Doring, natural de Ponta Grossa, que depois, anos depois, se tornaria Terezinha Cunha Pereira, desposando Francisco Cunha Pereira.

Zózimo Barroso do Amaral

Quatro estações

A fixação de DA em revista ilustrada era dominante nele. Nisso era um pouco incentivado por Nelson Faria, capaz de sacar a “Les Quatre Saisons”, de Mozart, para nominar uma publicação que, em última instância, deveria explorar aquilo que boa parte dos emergentes locais guardavam com a maior discrição – a vaidade. Mas não conseguiam esconder por muito tempo.

Por justiça, além de lembrar o “êxodo” do pessoal do Norte do Paraná e catarinenses pára a Curitiba dos 1960, tenho de citar as fortunas que os gaúchos do Oeste Sudoeste do Paraná estavam fazendo, com agronegócios, muitos deles começando a investir fortunas em Curitiba. Para esses, um endereço obrigatório eram as compras na Galeria Cocaco, um centro notável de artes plásticas e, também, da fabricação de móveis clássicos (seu Pedro).

Antonio Carlos Coelho

Para encerrar, por ora, meu olhar sobre o DA, não tenho como omitir dois fatos:

1) Dino um dia me apresentou um autêntico lord que as Minas Gerais mandaram para Curitiba, Carlos Coelho, dono da loja Coelho, sede ainda mantida pelo filho, Antonio Carlos, um intelectual a serviço da moda masculina. A forte impressão que Coelho me causou levou-me a escrever, anos depois, o perfil desse homem de incrível bom gosto para meu livro “Vozes do Paraná”;

2) O segundo fato final é engraçado: a pedido de Dino, fui, anos 1970, com uma decoradora ligada ao DA, fazer entrevista com uma dondoca, pura emergente com fortuna lá pelas bandas de Foz ou Cascavel.

Enquanto eu a entrevistava, esforçando-me, com redobrada paciência, em tirar alguma declaração importante da jovem senhora, ela ia respondendo, ao mesmo tempo, a perguntas da decoradora. Em certo momento, eu me assustei, quando ela ordenou, sem pestanejar:

– Meça essa parede da sala grande, ache ali 10 metros para biblioteca.

E não esqueça: você tem de providenciar os livros…

Contei a triste cena, DA riu; Nelson, mais ainda.

Mas ninguém ali, nem eu, estava interessado em fazer “novo jornalismo”.

A notícia morreu na hora, sem constrangimentos.

Hoje me permito, por dever de consciência e em homenagem ao DA, lembrar que o edifício da citada “locomotiva da sociedade”, como diria Ibrahim, era o Edifício Sumatra, no Centro de Curitiba.

E nada mais.

(CONTINUARÁ)

Carlos Jung
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