Uma máxima dos antigos romanos, “sede fiéis no pouco – in pauca fidelis” ajuda a explicar a história de vida de algumas pessoas que apostam em pequenas e continuadas ações marcando suas passagens pelo mundo.

Flávio Arns no Senado (Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)

São gestos nada altissonantes, não geram spotlights, mas acabam desdobrando-se na grande comunidade a que atingem. E de alguma forma, ganham o mundo, envolvendo e beneficiando milhões de homens e mulheres, a maioria uma população altamente vulnerável (criança, idosos, deficientes). E assim agindo, tais seres diferenciados fazem a diferença neste trânsito cósmico.

CONTRA A MARÉ

Esse comportamento da fidelidade ao todo, a partir de pequenos gestos, soa como quase absurdo no Brasil. Especialmente no universo da política partidária. “Afinal, agir assim não dá mídia, tem pouca acústica no eleitorado”, é o que alegam os que agem de forma contrária.

No entanto é esse mesmo o in pauca fidelis que vem marcando a vida pública de um dos fenômenos eleitorais do Brasil, o senador Flávio Arns, um político de 68 anos e que foi eleito senador em 2018 tendo gastado apenas R$ 236 mil, sempre viajando de ônibus leito e carro particular.

Jamais de avião.

FOI SURPREENDENTE

E mesmo assim, com tantas limitações, confirmou-se na preferência de milhões de eleitores. Sua eleição foi uma surpresa mais ou menos geral, após o enorme desgaste e acusações que afetaram a candidatura de Beto Richa, que acabou retirando do Senado o histórico Roberto Requião de Mello e Silva.

NO HOLÍSTICO REDE

Arns voltou em 2019 ao Senado, depois de já ter sido senador por oito anos e cumprido três mandatos na Câmara dos Deputados. E ter sido vice-governador do Estado do Paraná. Como quase todo parlamentar brasileiro, Arns deambulou por partidos. No caso, o PT e PSDB, estando agora no holístico REDE – de Marina Silva. Com o PT, ele teve a grande decepção: “Acabou virando um partido como os demais, despindo-se da aura de modéstia e honestidade que o fizera uma raridade no começo de sua existência”, opina Arns.

SAIAM DOS PALÁCIOS

Traçar um perfil de Flávio Arns não é difícil, ele é transparente. Isso pode explicar o “fenômeno eleitoral” que ele encarna, repetido em 2018.

Por exemplo, para um amigo e eleitor de Arns, o ex-ministro das Comunicações e ex-presidente da Telebrás, Fernando Xavier Ferreira, “as pessoas votam em Arns porque percebem que, a par de sua história de vida, ele é um homem do bem. Transpira o bem”.

OLHAR MULTIFORME

Esse olhar multiforme que Flávio tem para realidades que aparentemente “não são importantes” resulta em retribuições comunitárias, como a ter um ou vários comitês eleitorais informais e permanentes que tem em todos os rincões do Paraná. E que até podem surpreendê-lo. Tal como aconteceu em Tunas do Paraná, do qual propaga ter ficado encantado por alunos de uma escola que o receberam tocando violino. “São frutos da Orquestra Sinfônica do Paraná”, define, comovido com a lembrança.

GATOS PINGADOS

Como também não esquece o sábado de manhã em que juntou sete ou oito pessoas na cidade de Califórnia, para uma reunião em que se apresentaria como candidato ao Senado, com um detalhe: o pequeno grupo, professores, líderes de obras sociais, mães de família, tinham grande poder de multiplicação.

Resultado: em Califórnia teve a maioria absoluta dos votos para o Senado.

É CASO ISOLADO…

O fenômeno Flávio Arns, reconhecidamente alguém sem recursos materiais para financiar campanhas – e muito menos cabos eleitorais – é um caso à parte no universo brasileiro da política. Mas é também resultado de qualidades que o identificam sem barreiras: tem uma história familiar exemplar, a começar pelo pai, professor Osvaldo Arns, um dos educadores notáveis do Paraná no século 20, e todo o núcleo dos Arns, em parte citado, uma ficha absolutamente limpa e uma fidelidade impressionante a certas pedagogias. Uma delas, a passada pelo Papa Francisco, sintetizadas na “ordem”: – Saiam dos palácios, vão ao povo…