Passei a minha infância dando risada assistindo aos Trapalhões na televisão. Era um programa que brincava e tirava um sarro com o dia-a-dia do brasileiro. Quarenta anos se passaram, dois do personagens já morreram, os outros dois estão praticamente aposentados, mas os brasileiros continuam dando risada dos Trapalhões. Mas hoje não são atores exercendo a profissão, mas sim personagens reais da vida política brasileira, que deveriam ser exemplos de conduta e moral, mas que acabam transformando o Brasil numa piada mundial.

Um senador da República é pego com dinheiro entre as nádegas, em uma operação da Polícia Federal para combater desvios de dinheiro público nas verbas destinadas para o combate ao coronavírus. Chico Rodrigues, do Democratas de Roraima, é acusado de pertencer a uma quadrilha que promoveu sobrepreço na compra de produtos para enfrentar a pandemia e que geraram um milhão de reais em desvios. Na casa dele, além dos 30 mil reais escondidos na cueca, foram achados outros 70 mil em dinheiro vivo. Ele deixou a vice-liderança do Governo no Senado antes de levar a “voadeira” no pescoço, prometida pelo presidente Bolsonaro, para quem fosse pego em atos de corrupção.

Vice-líder do governo no Senado, Chico Rodrigues (DEM-RR) – Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado

O senador alega inocência, assim como também alega inocência um tal André do Rap, que ganhou de presente um habeas corpus do ministro Marco Aurélio Mello, deixou a cadeia de segurança máxima e fugiu direto para o Paraguai em um avião particular, como se fosse um pop star a caminho de um novo show. André do Rap é nada mais que um dos maiores traficantes do país, líder do PCC, assassino e ladrão. O ministro Marco Aurélio, que se aposenta no ano que vem ao completar 75 anos, disse que o inocente André do Rap era uma vítima do sistema porque estava em prisão temporária esperando julgamento, e que tinha direito de aguardar em liberdade. Interpretou a lei como um Deus, não consultou as instâncias inferiores, não pediu a opinião do Ministério Público, decidiu sozinho, com a sua consciência, colocar um “bandidão” nas ruas. Quando a decisão foi cassada pelo pelo presidente do Supremo, Luiz Fux, o ministro Marco Aurélio não gostou e demonstrou que os Tribunais Superiores se transformaram em um campo de batalha de egos.

Esses dois fatos mostram que o Brasil tem poucas chances de mudar o seu destino. Parece que estamos condenados a viver com o banditismo e a corrupção. Nem a Lava-Jato, que entre erros e acertos, passou o Brasil a limpo, foi capaz de colocar um freio em políticos ladrões. E quem precisa da Justiça sabe que ela atende apenas aos ricos e poderosos.

Saudades do tempo do Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, quando as piadas eram ficção e não a realidade nua e crua de um Brasil pobre e triste.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.


Jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná e pós graduado em gestão pela Fundação Getúlio Vargas. Tem passagens por diversos veículos de comunicação, como TV Bandeirantes, TV OM (hoje CNT) e Gazeta do Povo, onde permaneceu por 11 anos.