Aos trancos e barrancos o Brasil vai sobrevivendo ao coronavírus. Mais aos trancos do que qualquer outra coisa. A pandemia, que começou no final do ano passado na China e se espalhou rapidamente pela Europa, chegou no nosso país em fevereiro deste ano em meio à polêmica causada pelo presidente Jair Bolsonaro, que num impulso disse que era apenas uma gripezinha.

Hoje computamos 156 mil mortos e mais de 5.3 milhões de casos.

Não é uma gripezinha.

O presidente voltou à carga com a imposição do tratamento com a hidroxicloroquina, que ele alegava, sem nenhuma comprovação científica, que seria a forma de acabar com a doença. Em meio à guerra ideológica com o remédio, perdemos dois ministros da Saúde, que foram substituídos por um general especialista em logística. Pazuello não sabia nada sobre Saúde, mas como militar sabia obedecer ordens, e era isso que o presidente queria no ministério, alguém que obedecesse às suas ordens.

Foto: Instituto Butantan

O Brasil, junto com os Estados Unidos, passaram a liderar o número de casos no mundo. Por conta disso viraram o local perfeito para que os laboratórios farmacêuticos testassem as vacinas contra o coronavírus. Laboratório chinês, americano, francês, russo. São nove as vacinas em testes. Virou outra guerra ideológica e política. Cada governador quer ser o primeiro a anunciar à população do seu estado que conseguiu a vacina. Querem dividendos políticos, mas parecem estar pouco preocupados se a vacina é ou não eficaz. O negócio é cruzar a linha de chegada em primeiro e aparecer como salvador da pátria.

O ministro general, que até então só obedecia ordens, sai na frente do chefe e diz que o Brasil iria comprar 60 milhões de doses da vacina chinesa que está sendo testada e produzida pelo Instituto Butantã em São Paulo. Foi desautorizado por Jair Bolsonaro que soltou: “quem manda aqui sou eu e ninguém passa por cima da minha autoridade”. Novamente é o povo quem sofre. Bolsonaro acha que se comprar uma vacina chinesa vai o indispor com o seu amigo Donald Trump, presidente dos EUA, que diz que vai ter uma vacina, só não se sabe quando e se é eficaz. O presidente também não quer se curvar diante de João Doria, o governador de São Paulo, seu desafeto, que anuncia que ganhou a corrida da vacina do coronavírus.

Com os casos no Brasil em curva descendente, com praias e parques lotados, com bares bobando e sem respeito ao distanciamento social, o que nos resta é rezar para que a famosa imunidade de rebanho, que é quando quase todo mundo pega o vírus, aconteça no país. Porque se o brasileiro for depender dos políticos, morreremos sem remédios e sem vacina, por conta de brigas por liderança, por ego e por visibilidade. O povo é apenas um detalhe no caminho ao poder.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.


Jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná e pós graduado em gestão pela Fundação Getúlio Vargas. Tem passagens por diversos veículos de comunicação, como TV Bandeirantes, TV OM (hoje CNT) e Gazeta do Povo, onde permaneceu por 11 anos.