O suposto avistamento de um objeto voador não identificado (OVNI) em Campo Largo, no Paraná, foi um dos assuntos mais debatidos nas redes sociais e na internet durante a última semana. Desde 31 de maio, as filmagens do influenciador Mayk Leão pautaram o debate público brasileiro.

Para além da curiosidade e da especulação de vida extraterrestre, o caso atiçou a crença de grande parte das pessoas e esbarrou em discussões sobre confiança e credibilidade. Um levantamento realizado pela doutora e professora de Marketing Digital da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Lilian Carvalho mostrou que um a cada quatro (25%) dos usuários que comentaram o caso adotaram tons de crença ou “engajamento crédulo”.
Pesquisa sobre OVNI no Paraná revela comportamento na internet
A pesquisa foi conduzida entre os dias 31 de maio e 8 de junho, com 56 mil menções coletadas pela ferramenta Brandwatch e analisadas pela doutora. Nela, apenas 5% dos pesquisados apresentaram ceticismo explícito.
O que mais chamou a atenção da professora, no entanto, foi o volume de postagens com tons de ironia, humor e deboche. Cerca de 15 mil menções carregavam tom cômico ao tratar o tema.
“O peso do ‘contexto neutro’ é alto, mas, uma vez removido, o humor supera a crença em volume absoluto. Isso ajuda a explicar por que o evento circulou com tanta força. Ele ofereceu uma superfície ideal para a internet brasileira fazer o que faz de melhor, que é remixar, satirizar e redistribuir”
avalia Lilian.
Para ela, o caso ganhou contornos maiores que o suposto avistamento e tornou-se “um evento moldado pela arquitetura das plataformas”, com incentivo à viralização. Ao mesmo tempo, a identidade de Mayk também se tornou vetor de especulações e piadas, diz.
“Isso revela uma característica fundamental da comunicação nas plataformas, em que a mensagem não é consumida em estado puro. Ela chega mediada por rótulos, emoções e sinais sociais de pertencimento. O público não apenas lê o conteúdo; ele também lê a reação dos outros ao conteúdo. Nesse ambiente, a ironia costuma vencer porque é uma linguagem de baixo risco, pois permite participar da conversa sem se comprometer totalmente com a crença, nem com a negação”
afirma.
Confiança e credibilidade
O baixo ceticismo explícito nas redes foi confrontado pelas manifestações de “ceticismo institucional” da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). A professora entende que, apesar da desconfiança das instituições, o público continuou a crer no caso.
Isso se dá, segundo ela, devido ao ambiente digital que descaracteriza o peso da autoridade formal na validação da confiança. A afinidade comunitária e a validação algorítmica ganham força maior nesse espaço. “A narrativa com maior potencial de circular tende a ganhar mais visibilidade, independentemente de sua robustez explicativa”, explica.
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