Dez dias após a prisão do policial militar Junior Sancho Cambuhy, conhecido como “Sancho Loko”, novos detalhes da investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) revelam denúncias graves envolvendo abordagens policiais em Curitiba.

O PM, que soma mais de 250 mil seguidores nas redes sociais, é investigado junto a outros dois policiais por suspeitas de tortura, lesão corporal, fraude processual e falsidade ideológica. Agora, relatos de supostas vítimas, apreensões e até falas públicas do policial ajudam a compor o inquérito. A Ric RECORD teve acesso aos documentos da investigação.
Denúncias partiram de suspeitos de tráfico
De acordo com o Ministério Público do Paraná (MPPR), os fatos investigados teriam ocorrido entre outubro de 2025 e março de 2026, principalmente na região do Boqueirão.
A apuração aponta que pessoas ligadas ao tráfico procuraram o MPPR para denunciar um suposto esquema envolvendo os policiais. Entre os relatos, está o de um casal que afirma ter sido abordado dentro de casa e agredido.
Nos documentos da investigação, uma das vítimas relatou: “Ele vem, oprime, bate”, ao apontar a atuação dos policiais durante as abordagens. Em outro trecho, o denunciante afirma que os agentes levavam valores e entorpecentes: “Ele chega lá, ele leva o dinheiro”.
Há ainda relatos de violência contra mulheres. Uma das denunciantes afirmou: “Eles fazem eu ficar pelada na frente de todo mundo”. Outro depoimento cita ameaça: “Ele falou: eu vou te estuprar”.
As denúncias também incluem suspeitas de que parte das apreensões não era registrada oficialmente. Um dos relatos aponta: “Na delegacia só foi apresentado um pacote. Ou seja, ele ficou com o restante e o dinheiro”.
As acusações fazem parte do material reunido pelo Ministério Público e ainda são investigadas.
Apreensões levantam dúvidas
Durante a operação, realizada no dia 7 de abril, os agentes cumpriram mandados em casas dos investigados e também na unidade militar onde atuavam.
No imóvel de Sancho, foram encontradas munições e duas granadas de efeito moral. Aos policiais, ele afirmou que os itens eram usados em treinamento.
A defesa reforça essa versão e sustenta que se trata de material lícito dentro do contexto da atividade.
“Não é uma granada como se vê em filmes. É uma granada de som e luz, de efeito moral”
afirmou o advogado Claudio Dalledone.
Já no batalhão, a situação chamou ainda mais atenção. Em armários sem identificação, foram localizados simulacros de armas, munições e drogas, como maconha, crack e cocaína.
Segundo a defesa, nada disso foi diretamente ligado ao policial. “Ele sequer tem armário na corporação”, argumenta.
Uso de granadas entra na investigação
O especialista e instrutor Afonso Nina foi ouvido pela repórter Simone Giacometti, da Ric RECORD, e explicou o funcionamento dos artefatos apreendidos.
“Essa granada faz um flash muito grande de luz e um barulho muito forte, que causa desorientação momentânea”
afirma Ninja.
Ele também alertou que, apesar de serem consideradas menos letais, podem causar danos se usadas de forma inadequada. “Se for utilizado de forma errada, pode se tornar letal ou causar ferimentos”, afirmou.
A legalidade da posse ainda será analisada dentro do contexto da investigação.
Falas públicas também são analisadas
Além das denúncias, declarações feitas por Sancho em vídeos e podcasts também passaram a integrar o inquérito.
Em uma das falas, ele afirma: “Eu amo servir e proteger. Eu amo caçar bandido”.
Segundo o Ministério Público, esse tipo de conteúdo pode ajudar a contextualizar as acusações de abuso e tortura.
Defesa fala em perseguição
O advogado Claudio Dalledone rebate todas as acusações e afirma que o caso é resultado de um plano articulado por organizações criminosas.
“Essas supostas vítimas são fruto de um roteiro de grandes narcotraficantes”
declara Dalledone.
Segundo ele, a estratégia seria enfraquecer a atuação policial na região.
O advogado também defende a conduta do cliente: “O policial Sancho é um homem honrado, pai de família e combatente”.
Pedido de soltura e próximos passos
Em nota à Ric RECORD, a defesa afirma que protocolou um pedido de liminar para a soltura imediata do policial.
A análise ainda não foi concluída, após mudança do relator do caso. A expectativa é que a decisão ocorra nos próximos dias.
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