Uma familiar de Luis Eduardo Amaral, de 31 anos, um dos três homens mortos durante uma operação da Polícia Militar (PM), no último dia 8, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, contesta a versão de que houve um confronto e afirma que o rapaz foi executado dentro de casa, desarmado, na frente dos filhos pequenos. Segundo ela, um dos policiais envolvidos na ação já havia estado na casa cerca de duas semanas antes, em outra abordagem feita sem mandado judicial.

Segundo a parente, no dia da morte do rapaz, eles ouviram os cachorros latirem e perceberam o portão sendo forçado. Luis era pai de sete filhos. As crianças presenciaram as cenas, segundo a familiar.
De acordo com a Polícia Militar (PM), os confrontos aconteceram durante o cumprimento de 15 mandados de busca e apreensão relacionados ao tráfico de drogas e ao armazenamento ilegal de armas. A corporação informou que as trocas de tiros ocorreram em dois pontos distintos: uma casa e um apartamento localizados em condomínios.
Imagens registradas por câmeras de segurança mostram os policiais chegando ao endereço de Luis Eduardo pouco antes dos tiros (assista abaixo).
Família contesta versão oficial e relata execução
“Não tem confronto nenhum. Ele estava dentro de casa. A gente ouviu os cachorros subindo e latindo. Depois, a gente ouviu o portão sendo forçado. Levantamos e fiquei mais perto da porta do quarto. Ele [Luis] foi sentido à janela do quarto e abriu um pouco a cortina pra ver o que tava acontecendo”, afirmou a familiar em entrevista à Banda B nesta sexta-feira (11), três dias depois do suposto confronto.
A mulher disse ainda que não sabe o porquê de os policiais terem procurado o rapaz durante a operação. Segundo ela, Luis não tinha qualquer tipo de envolvimento com tráfico de drogas nem guardava armas em casa. Na chegada dos policiais na casa, os agentes teriam forçado Luis a pular a janela do quarto.
“Quando eles [policiais] conseguiram arrancar o portão, já entraram gritando: ‘Vem, vem, vem!’. Ele pulou a janela e já entraram dois policiais pela porta. Eles [policiais] me empurraram pro final do corredor da casa e logo já ouvi os disparos. Eu comecei a gritar: ‘Vocês mataram ele, vocês mataram ele!'”.
A parente relatou que, após os tiros, foi levada com os filhos para um cômodo nos fundos da casa e impedida de circular. Ainda segundo ela, os policiais fizeram perguntas sobre a presença de armas e drogas no imóvel e exigiram sua assinatura em um documento que não teve tempo de ler.
A mulher também alega que a cena foi alterada. “Quando a gente foi sair de dentro da casa, eles colocaram o portão da minha casa do lado do corpo pra gente não ver. Minha sogra mora três casas pra cima e acompanharam a gente até ali”, acrescentou.
Ela disse ainda que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado, mas, ao chegar, foi dispensado. “Quando o Samu chegou, os policiais já não deixavam ninguém subir ou descer a rua. Eles disseram que ele já estava morto e mandaram a ambulância embora.”
A familiar de Luis prestou depoimento à Corregedoria da Polícia Militar, que, segundo ela, ouviu seu relato e informou que uma investigação será aberta. A mulher relatou ao órgão que policiais militares estiveram em sua casa cerca de duas semanas antes, vasculharam o imóvel e procuraram pelo rapaz. Na ocasião, eles não apresentaram ordem judicial para entrar na residência, segundo relatou.
Ela também afirma ter reconhecido um dos policiais que invadiu a casa no fim de junho como o mesmo que participou da ação do dia 8, quando Luis Eduardo foi morto.
Logo após a ação, o tenente-coronel José Luciano Buski, comandante do 20º Batalhão da Polícia Militar, disse à reportagem que os três que morreram tinham passagens pela polícia e reagiram às abordagens atirando. A mulher afirmou à Banda B que o rapaz conhecia os outros dois homens que morreram, mas não mantinha amizade.
“Três suspeitos morreram. Todos têm um histórico policial. Infelizmente, durante esse cumprimento, os indivíduos acabaram efetuando disparos contra os policiais militares. Em razão disso, infelizmente entraram em óbito”, disse o tenente-coronel no dia 8.
Após a operação, a PM informou ter apreendido uma espingarda calibre 12 e pistolas, além de porções de haxixe e cocaína. O comandante explicou que os condomínios vinham sendo usados como pontos estratégicos de distribuição de drogas para a região.
“A operação levou à prisão de cinco pessoas e à execução de 15 mandados de busca e apreensão. Entre os detidos, dois já tinham mandados de prisão expedidos pela Justiça. Os policiais ainda apreenderam três pistolas e uma espingarda calibre 12. Além das armas, foram apreendidos cerca de um quilo de cocaína, meio quilo de haxixe e um 1,5 kg de maconha, parte já embalada para venda. Dinheiro e outros itens relacionados ao tráfico também foram apreendidos na ação”, disse a corporação.
Pedido de Justiça e contradições no caso
A familiar disse que os PMs acusaram Luis Eduardo de reagir à abordagem com a espingarda calibre 12 e contestou: “Ele não pulou a janela pra fugir. Como ele ia fugir indo de frente com eles? Eles falaram que ele [Luis Eduardo] estava com uma 12. Como ele vai pular uma janela com uma 12 de frente com eles?”.
“Ele não estava armado. Eu quero Justiça. O que fizeram foi uma covardia. Ele não tinha nada em casa. Eles forjaram tudo. Não dá pra entender. Quando eu fui entrar na minha casa depois que foram embora, eles tinham lavado tudo aqui. Usaram a mangueira e tiraram o sangue. Mas tem algumas marcas de sangue nos brinquedos do meu filho. Eu tirei foto.”
O que diz a PM
A Banda B procurou a PM para comentar sobre o suposto confronto. Em nota, a corporação informou que, durante o cumprimento das ordens judiciais, houve o emprego de “força letal para resguardar a integridade física dos militares estaduais, neutralizando injusta agressão de três indivíduos que não acataram as ordens policiais”.
A Polícia Militar também informou que instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar e esclarecer todas as circunstâncias do ocorrido.
Leia a nota na íntegra:
“Na manhã desta terça-feira (8), a Polícia Militar do Paraná (PMPR) realizou uma ação integrada, denominada “Schinus”, que teve como objetivo o cumprimento de ordens judiciais no bairro Santa Cândida, região norte da capital paranaense. Dentre as práticas relacionadas aos alvos da operação estavam o tráfico de drogas, porte e posse ilegal de armas de fogo, aliciamento de menores para práticas criminosas, lavagem de dinheiro, além de ameaças e intimidação de moradores da região.
A operação resultou na prisão de cinco pessoas e no cumprimento de 15 mandados de busca e apreensão contra a organização criminosa, resultando também na apreensão de três pistolas e uma espingarda calibre 12. Além das armas, foram apreendidos cerca de um quilo de cocaína, meio quilo de haxixe e um 1,5 kg de maconha. quantias em dinheiro e outros itens relacionados ao comércio de drogas ilícitas.
Entretanto, durante o cumprimento de parte das ordens judiciais, houve o emprego de força letal para resguardar a integridade física dos militares estaduais, neutralizando injusta agressão de três indivíduos que não acataram as ordens policiais. Acerca destes casos, a PMPR esclarece que foi instaurado Inquérito Policial Militar (IPM) para apuração e esclarecimentos de todas as circunstâncias do ocorrido o qual, após concluído, será remetido ao Ministério Público para análise, conforme preconiza o Código de Processo Penal Militar.”
O que diz o Ministério Público
Em nota, o Ministério Público do Paraná informou à Banda B que, conforme o fluxo adotado para casos de confrontos policiais no estado, o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP) é comunicado sobre todas as ocorrências desse tipo e faz o encaminhamento às Promotorias de Justiça com atribuição para a persecução penal.
No caso específico da morte no Santa Cândida, o GAESP comunicou a 7ª Promotoria de Justiça de Crimes Dolosos Contra a Vida de Curitiba, que acompanha o caso. Ainda segundo o MP, o 20º Batalhão da Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM), que até o momento não foi distribuído ao Poder Judiciário nem a uma das Promotorias junto à Auditoria Militar.
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