Até então, era para ser uma entrevista objetiva. Não ultrapassar os 20 minutos de praxe – pois sei o quanto eu falo quando a prosa é boa – responder o roteiro de perguntas e curiosidades, e claro, saber as novidades da quinta temporada do programa semanal Mundo Sonoro, projeto idealizado e conduzido pela jornalista e apresentadora, Janaína Ávila, e com produção técnica de Ricardo Lima, transmitido pela Rádio UEL FM 107,9. 

Porém, o que era para ser uma entrevista, virou um bate-papo. Se fosse gravado seria um bom podcast. Ao longo de quase 1h, por videochamada, Janaína Ávila contou ao Música é o Canal a sua relação com o rádio, a transição do público, e principalmente, o quanto a música se tornou um instrumento de identificação política e cultural para o engajamento social e artístico do seu Mundo Sonoro

Exatamente há 20 anos, paralelamente às pílulas do Mundo Sonoro, exibidos à época pelo programa Trem das Onze apresentado por Jersey Gogel e no ar há 13 temporadas – um movimento encabeçado por Janaína Ávila e Viviane Romão ganhavam proporções famigeradas pela noite londrinense. 

Reconhecido até hoje – saudosamente – pelas ‘quartas latinas’ realizada na icônica casa do Bar Valentinoem tempos áureos quando ocupava a região da Avenida Bandeirantes, pelo entorno do cartão postal da cidade, o Zerão – a Noite do Charuto Cubano acompanhou o estopim do Mundo Sonoro. Eram quase onipresentes. Não havia como desassociar.

Em uma época onde a internet era discada e a pesquisa se dava por sebos, lojas de discos e o Almanaque Abril, Janaína Ávila acompanhou à olhos nus e ouvidos atentos a transição do mercado fonográfico pelas últimas duas décadas e principalmente a relação com o seu público.

Na primeira temporada, tinha um ouvinte que cumpria pena. Ele enviava cartas toda semana. A mudança com as redes sociais trouxeram estas novas possibilidades de conversar com o público antes, durante e depois da transmissão”, celebra. 

Se o rádio era uma premissa em sua vida? Sim e não. Mas, o fato é, desde a estreia do Mundo Sonoro, quem acompanha a transmissão saboreia um forte relacionamento entre Janaína e a sua morada radiofônica. É a extensão do seu quintal. Ainda que, ela grave em solitude – embora acompanhada de Cajuína e Odara, suas pets – as histórias do presente reconectam às suas lembranças. 

Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com o rádio. Meu pai não deixava a gente ouvir, pois ele achava as músicas muito ruins, isso lá na década de 1980. Ele tem uma visão romântica, ouvia boleros, música instrumental, diferente do que uma adolescente queria escutar”, confessa. 

Natural de Campo Mourão, e radicada em Londrina desde a década de 1990, a jornalista sempre teve a rádio entrelaçada ao ninho familiar.  

Quando mudei para Londrina, eu comecei a escutar rádio. Como eu morava com uma prima de Goiás, por influência dela, eu ouvia muita música sertaneja, aquelas clássicas do Chitãozinho e Xororó. Era outro período. E nós tínhamos um primo radialista. Foi quando começaram a surgir as rádios Igapó FM e Folha FM. O rádio sempre foi companhia em casa”. 

Conectada desde sempre, hoje, a forma como ela produz o Mundo Sonoro vai além do período quase obtuso dos primórdios da internet. E ainda assim, mantém a originalidade de cada edição. O nome do programa vai de encontro ao conceito, é uma viagem por diversas culturas e momentos factuais conduzidos pela música. 

O meu pontapé inicial é o Spotify. Para você ter uma ideia, são quase duas mil músicas pela playlist. Eu vou vasculhando e ouvindo. Tudo começa pela audição e depois pela pesquisa. Atualmente, a gente vive um período de muita produção musical e divulgação de acervos. Ou seja, existe um público que também tem interesse em ouvir estes sons e fazer conexões. O Mundo Sonoro tem uma linha editorial, não é imparcial. Eu trago temas que acontecem fora e aqui. Eu furo a bolha. É a minha voz”, pondera, conceitua e vai além.

(Arte: Visualitá Gestão de Design Estratégico

O Mundo Sonoro não é um programa de música tradicional. O que sempre me encantou é a fusão entre a música de raíz e a contemporânea. O que a indústria chama de word fusion”, ensina. 

Se a vida é a arte do encontro, o ponto inicial do Mundo Sonoro teve os laços muito bem estabelecidos. E segundo Janaína Ávila, pela sua madrinha no dial: Janete El Haouli musicista, produtora cultural e pesquisadora, com ênfase em rádio como mídia experimental.

Quando eu levei a proposta para a Rádio UEL eu conversei muito com a Janete El Haouli que era diretora na época. Entre conversas e indagações: a música é geolocalizada? Universal? Como se dá? A música possibilita diversas situações e sensações”, provoca a jornalista. 

Com produção técnica de Ricardo Lima, a quinta temporada do Mundo Sonoro estreou pela programação da Rádio Uel em 17 de fevereiro. É exibido toda sexta-feira a partir das 16h, com reprise às segundas e transmissão às 21h05. As temporadas estão hospedadas pelo site da própria emissora, onde também é possível ter acesso aos mais de 60 programas da grade.

Ao lado, Janaína Ávila e Ricardo Lima, diretamente dos estúdios da Rádio Uel Fm.  

A música aproxima os continentes e histórias. As bandeiras são as mesmas. Os estilos e gêneros musicais evidenciam cada vez mais esta realidade, o afrobeat é um exemplo. Já fiz programas emocionada. Imagina você poder encontrar vozes do mundo inteiro por uma causa humanitária onde as dores são as mesmas. A música vai além das fronteiras. É isso. Escuta aí”, promove a jornalista que é a única brasileira integrante da seleta rede de críticos Transglobal World Music Chart.

Fotos: Divulgação | Agradecimento: Janaína Ávila, Cajuína e Odara.

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