Pela primeira vez, desde que foi presa no dia 19 de fevereiro, a médica Virgínia Soares de Souza falou sobre as denúncias de que seria a responsável por antecipações de mortes na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Evangélico, em Curitiba. A entrevista foi apresentada no programa Fantástico, na Rede Globo, na noite deste domingo (10). Sem mostrar o rosto, a gravação do áudio foi feita pelo advogado da acusada, Elias Mattar Assad, com base em perguntas feitas pela produção do programa.

A médica nega as acusações. “Nunca fui negligente, nunca fui imprudente, nunca tive uma infração ética registrada, uma queixa e exerci a medicina de forma consciente e correta”, relata Virgínia na entrevista.

“Eu não sou Deus, não sou perfeita. Nada mais fiz do que exercer com a maior dignidade possível e com respeito aos pacientes a medicina intensiva”, afirmou.

“Eu não sou dona do mundo, eu não sou dona de nada. Eu fui colocada não só como demônio formador de quadrilha, mas também como uma pessoa de soberba”, disse Virgínia. “Eu sou uma pessoa rigorosa e chego, às vezes, até ser grosseira e confesso que não é bonito isso, mas pela responsabilidade que se tem e pela necessidade que se tem de que as coisas funcionem”, acrescenta.

Vingança

Ainda durante a entrevista, e ex-chefe da UTI relata que as testemunhas que depuseram contra ela “não sabem do que estão falando porque não são médicas”. Ela também afirma que algumas das testemunhas foram demitidas e que quiseram se vingar.

Virgínia cita, como exemplo, o depoimento de uma auxiliar de nutrição. “Ela [a auxiliar] diz que eu entrei na UTI e desliguei quatro respiradores ao mesmo tempo. E eu confesso que eu não tenho controle remoto em nenhum respirador meu para ter essa capacidade. Então, nós ficamos submetidos a julgamento de pessoas sem capacidade de compreensão”, aponta.

Gravações telefônicas

Um dos trechos mostra a médica conversando com um médico, que está entre os presos. Os dois reclamam do comportamento de outro médico, que estaria demorando para dar altas na UTI. Veja a conversa:

Virgínia: “Não adianta entulhar a UTI, tem que tirar”.

Médico: “Ele é meio entulhador mesmo”.

Virgínia: “Meio? Nossa senhora! Quer desentulhar essa UTI que está me dando coceira.”

Sobre isso, Virgínia se defende novamente e afirma que escolheu mal as palavras e que ‘desentulhar’ não significa matar pessoas. “Termo infeliz que a gente fala em conversa informal, mas é desesperador você chegar a um plantão e perceber que entre 14 pacientes, cinco ou seis deles não têm o que se fazer por eles. A gente sente vontade de ir embora porque um médico assume um plantão e fica feliz quando ele tem como fazer, como lutar, usar os recursos e ter bons resultados”, explica.

Mortes suspeitas

O inquérito, que foi entregue pela polícia ao Ministério Público, tem 26 casos mortes suspeitas. Um dos casos que mais chamou a atenção da polícia é de um paciente do Sistema Único de Saúde (SUS), de 67 anos, que deu entrada no hospital argumentando dores em um dos dedos dos pés. Depois de passar por uma cirurgia vascular, o paciente precisou ser encaminhado para a UTI em virtude de complicações.

Segundo as gravações, três dias depois, Virgínia usa o termo ‘desligar’ ao se referir ao paciente, que se chamava Ivo. A conversa foi feita entre ela e uma funcionária do hospital, no dia 27 de janeiro.

Virgínia: “E o próximo que nós vamos desligar é o Ivo”

Funcionária: “Só esperar a família?”

Virgínia: “Acho que já, a mulher é de muito longe, né? Mas, pelo visto eles já sabem, porque parte da família foi falada.”

Funcionária: “Uhum”

Virgínia: “Eles são muito ruins, a gente não tem o que fazer”.

Em relação a esse trecho, Virgínia relata durante a entrevista: “Era um paciente que já tinha dano cerebral grave, cem minutos de parada, considerando a idade, que se não me falha a memória, acima de 60 anos, a situação neurológica desse paciente já se mostraria com um comprometimento muito difícil. Portanto, o termo desligar seria desligar as drogas que estariam sustentando um paciente sem reversibilidade, jamais um respirador”, explica.

Na noite seguinte da conversa com a funcionária, dia 28 de janeiro, Virgínia, ainda dialoga com um médico de plantão sobre o pedido de uma pessoa com o nome Kampa sobre vagas na UTI. Durante a conversa, ela cita novamente o nome do paciente Ivo.

Virgínia: “Eu falei, tudo bem, amanhã ainda consigo mais dois né, porque eu não fui com o Ivo porque eu fui com dois hoje de manhã”.

Médico: “Ah, eu já tô indo com o Ivo”

Virgínia: “Ótimo”

Médico: “Não gostei dele”

Virgínia: “Não, coitadinho, pelo amor de Deus, né?. É que eu fui com dois hoje de manhã então se eu fosse com o Ivo, né, ficaria feio. Então, ou ia você ou eu amanhã, mas até me alivia se eu for hoje”

Para Virgínia, a expressão citada no começo da conversa ‘eu fui com dois de manhã’ significa que ela retirou medicamentos que não faziam mais efeito de dois pacientes considerados em estado terminal. Disse ainda que o mesmo procedimento deveria ter sido feito pelo médico com quem ela dialogou na conversa.

“O Ivo foi mantido com uma série de drogas suportivas e não havia reversibilidade. Mas isso contrapõe aquilo que foi afirmado na minha acusação. Essas medidas suportivas não deveriam ser mais realizadas, mesmo assim o paciente chegou a sobreviver 24, 26 horas depois. Então, isso não é antecipação de óbito.”

No dia 29 de janeiro, a morte de uma pessoa com o nome Ivo, de 67 anos, foi registrada pelo serviço funerário de Curitiba. O corpo estava no Hospital Evangélico.

O prontuário indicou que, entre os medicamentos aplicados ao paciente antes de morrer, estava uma ampola do anestésico Diprivan, pouco tempo depois um frasco do sedativo Fentanil e, em seguida, duas ampolas de Pavulon, um medicamento que paralisa os músculos e bloqueia a respiração. Médicos, que preferiram não se identificar, disseram ao Fantástico que a aplicação dos três medicamentos juntos não são usuais em UTIs em virtude do alto risco para pacientes.

Virgínia contraria e diz que as drogas “são frequentes”. “Inclusive em uma fase final, onde, às vezes, você com um paciente extremamente grave em um momento pré óbito, também é utilizado. O importante é tirar a dor e o desconforto sempre do paciente. Jamais um coquetel letal”, finaliza a médica.

Para ver a entrevista e a reportagem do Fantástico na íntegra, clique aqui