Da SMCS

O número de pacientes mensalmente atendidos pelo programa Melhor em Casa em Curitiba dobrou em menos de um ano. E no próximo semestre deve triplicar, conforme meta da coordenação municipal do programa, antes chamado de Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde. Em agosto do ano passado havia 200 pessoas assistidas em casa; nove meses depois, em maio, o número passou para 400 e nos próximos meses deve chegar a 600 pacientes mensais. O programa é federal e realizado com recursos de contrapartida municipal.

melhor-em-casa

(Foto: Everson Bressan/SMCS)

Para atender ao aumento da demanda foram contratados dez novos médicos, totalizando 21 médicos integrados ao programa. “Atualmente, a média é de aproximadamente 20 pacientes por médico, mas a meta é chegar a 30 pacientes por profissional, conforme recomenda o Ministério da Saúde”, afirma o coordenador médico, Clovis Cechinel. A equipe médica conta com o apoio de enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, nutricionistas, farmacêuticos e fonoaudiólogo. “O serviço trata o paciente como um todo”, enfatiza o coordenador.

Multidisciplinar

O trabalho é realizado por 127 profissionais de saúde em atuação nos dez SADs, um para cada regional e um para o bairro Tatuquara, onde será instalada a décima regional. São dois médicos para cada SAD e um coordenador médico. O programa conta com especialistas nas áreas de geriatria, cardiologia, nefrologia, médico da família, reumatologia e psiquiatria. “Fazemos um cronograma semanal para que a cada dia os pacientes sejam visitados por profissionais de diferentes áreas. As visitas médicas podem ocorrer uma, duas vezes por semana ou a cada dez dias, depende da necessidade de cada caso”, explica Rodrigo Schwanke, que gerencia o serviço.

O atendimento é realizado de segunda a segunda, das 7h às 20 horas, inclusive nos finais de semana e feriados. No período noturno é mantida uma equipe de apoio ao acompanhante por telefone, das 19h às 7 horas. Há ainda uma escala médica noturna para emissão de declaração de óbito no domicílio e visita pós-óbito. “Entregar o atestado de óbito em casa é um grande conforto para a família e evita a necessidade do corpo ir para o IML”, conclui o coordenador médico.

Em casa

“O anjo da guarda colocou elas de branco aqui” diz Mariana de Jesus Tomba, que cuida da mãe Filomena Margarida de Jesus, de 93 anos. Ela fala da equipe do SAD Regional Pinheirinho, naquele dia composta pela médica Dayane Torres, pela enfermeira Sulamita de Paula Santos e pela nutricionista Aline Andretta. “As meninas”, como são chamadas por alguns, são recebidas como se chegasse um grupo de amigas na casa dos três pacientes visitados.

Filomena quase não fala, não anda, possui sequelas de Acidente Vascular Encefálico (AVE) e é alimentada apenas através de sonda. A paciente não estaria na escala de visitas do dia, mas a equipe foi chamada porque havia problemas na sonda. Após os exames médicos de rotina, a enfermeira Sulamita reposiciona o equipamento e faz a desobstrução, enquanto a nutricionista Aline orienta a filha sobre as composições e a espessura do suco alimentar para evitar entupimentos. “Se fosse levar minha mãe até elas, dependeria de ambulância e, se eu tivesse que levar à consulta, teria que ir até à unidade marcar consulta e retornar para levá-la”, conta a filha.

Ter um cuidador responsável e orientado é imprescindível para o cuidado do paciente em domicílio. Além do atendimento médico, a orientação local e constante do cuidador é uma das atividades que mais toma tempo dos profissionais. “Feliz da família que recebe esse atendimento. Elas têm paciência e ensinam como deve ser feito. Tem hora que a gente não sabe nem o que está fazendo”, admite Mariana. A orientação nutricional também é um aspecto importante na evolução clínica da paciente Marli Cloris Alves de Moraes, de 70 anos, diagnosticada com a Síndrome de Raynaud. “Esta é uma doença reumatológica autoimune que pode provocar úlceras (feridas) no corpo”, explica a médica Dayane.

Marli recebe a equipe de enfermagem três vezes por semana para tratar a ferida que se abriu na perna. Depois de permanecer internada para fazer o tratamento com antibióticos, a paciente foi admitida no programa. Somente após a coleta de material em casa, um exame diagnosticou uma bactéria multiresistente ao antibiótico que utilizava. “Ela foi encaminhada para o médico vascular e para o estomaterapeuta, especializado em úlceras, aí começou a evoluir o tratamento”, lembra a médica. A enfermeira explica que o material utilizado no curativo também é importante. “Há um material a ser utilizado para cada tipo de problema. Vamos adequando conforme a evolução”, complementa Sulamita.

A nutricionista Aline completa o atendimento avaliando a dieta. Marli está sendo atendida pela equipe desde janeiro e no último mês pesava 46 quilos, devido ao tratamento com os antibióticos. Desde que iniciou o tratamento nutricional ganhou 3 quilos. A nutricionista Aline orienta que a dieta de Marli deve ser rica em proteínas. “Não é só o peso que acompanhamos, no caso dela a proteína é muito importante para refazer os tecidos lesados”, afirma. “Se não contasse com a orientação delas, com certeza, a evolução seria mais lenta.”, recorda Marli.

A equipe também passa pela casa do microempreendedor Luiz Wanderlei, marido de Arlete Teixeira, de 62 anos. Arlete tem Esclerose Lateral Amiotrófica (Ela) e perdeu todos os movimentos. “A Arlete ficou quatro meses internada no Hospital de Clínicas, estava com alta, mas não tínhamos como sair porque ela depende da respiração mecânica (não invasiva). Com o programa conseguimos o aparelho e aqui ela estabilizou e ficou mais serena”, afirma o marido. Para descontrair, ele brinca com a equipe e enfatiza: “Nosso desgaste era muito grande, ela estava no hospital correndo risco de contrair uma infecção hospitalar, além do estresse. Só tem conhecimento desse atendimento quem está inserido no programa”, conclui Luiz.

A médica Dayane diz que o vínculo médico-paciente é “muito mais estreito” com o atendimento domiciliar e a faz entendedora das dificuldades. A médica acrescenta que nesse programa é preciso entender o paciente no todo e enxergar o ambiente em que vivem.