Deputados europeus pressionam a Comissão Europeia para que freie as negociações com o Mercosul diante da fraude na carne brasileira, enquanto autoridades veterinárias de Bruxelas criticam de forma dura a gestão do governo de Michel Temer em relação à crise e fazem até novas ameaças.

Nesta terça-feira, 21, a Comissão Europeia se reuniu com deputados do bloco e indicou que poderá ampliar o embargo contra produtos brasileiros. Em todos os portos do continente, autoridades estão colhendo amostras de carnes brasileiras e outros produtos que estejam entrando no mercado europeu. Se ficar provado que existem problemas de saúde nesses carregamentos, a UE deixou claro que “não hesitará em tomar novas medidas”.

“Se o Brasil não nos der garantias e se virmos que o problema é sistêmico, haverá consequência”, disse Michael Scannell, chefe do escritório de Veterinária da Comissão Europeia. Segundo ele, Bruxelas pediu que todos os governos do bloco elevassem os controles sobre todos os alimentos de origem animais importados do Brasil. “Pedimos maiores controles físicos e a inclusão de controles de higiene”, disse, indicando que o resultado desse esforço será conhecido na sexta-feira.

A pedido da Europa, o Brasil suspendeu as exportações de quatro estabelecimentos envolvidos na Carne Fraca. Mas, durante a reunião em Bruxelas, Scannell admitiu que, no passado, “fez auditorias no Brasil e encontrou problemas”. “No setor de carnes, continuamente temos alertado sobre problemas ao longo de anos”, disse.

Irregularidades

No setor bovino, só “um número pequeno de estabelecimentos” pode exportar hoje. No caso da carne suína, o chefe dos veterinários insiste que o Brasil “fracassou nas auditorias” e nenhuma grama de carne entra. Mesmo entre as empresas brasileiras autorizadas a exportar, a UE confirmou que registrou ao longo dos anos 47 casos de irregularidades.

“Insistimos que temos preocupações de que tal grau de corrupção dentro dos estabelecimentos e das agências de controle não tenha sido de conhecimento das autoridades”, disse. Esperávamos, francamente, que esses problemas tivessem sido detectados e que algo sério estivesse ocorrendo, sem ter de esperar pela polícia”, afirmou Scannell.

Tradicionalmente contrários a um acordo com o Mercosul, o lobby agrícola no Parlamento Europeu aproveitou a crise para deixar claro que não quer um acordo com o Brasil. “Temos um problema muito grave no Brasil”, declarou o eurodeputado e ex-ativista francês José Bové. “Se a fraude ocorreu em quatro estabelecimentos, tem uma falha de um sistema global de controle de fraude”, disse. “Não são apenas as quatro empresas que estão em questão. É o Brasil que está em xeque.”

“Não podemos fazer concessões a quem tentou enganar”, disse o deputado Eric Andrieu. “Temos de ser cautelosos com acordos. Quando é que vão anunciar o fim das negociações?”, questionou o deputado Philippe Loiseau. “Depois do que descobrimos, porque é que ainda estamos negociando um acordo com eles?”, criticou o deputado Luke Flanagan.