Nas pesquisas, Bolsonaro aparece na frente na corrida eleitoral em todos os cenários sem Lula | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Ag. Brasil

 

Agora que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado criminalmente em segunda instância e pode ser barrado da disputa presidencial de 2018 pela Lei da Ficha Limpa, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) desponta como principal nome a substituir o petista na liderança das intenções de voto.

Segundo pesquisa do instituto Datafolha divulgada na semana passada, sem Lula na corrida, o parlamentar chega a liderar com 20% das intenções de voto no primeiro turno.

Nesse novo cenário, o que pode beneficiar e prejudicar o pré-candidato? Das consequências de se candidatar por uma sigla “nanica” até o apoio de uma militância motivada principalmente nas redes sociais, veja abaixo a análise de alguns dos fatores que podem influenciar a opinião pública a oito meses das eleições em 7 de outubro.

1. Pouco tempo de TV

Bolsonaro, hoje no PSC (Partido Social Cristão), anunciou sua intenção de se filiar ao PSL (Partido Social Liberal) para concorrer à Presidência da República. Até agora, nenhum outro partido confirmou que pretende se coligar à legenda.

Conseguir apoio de outras siglas, principalmente das maiores, é importante porque a distribuição de dinheiro público para campanha e do tempo de propaganda na TV é proporcional ao tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados, observa o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

2. Menos de 1% dos recursos do fundo partidário

Quanto aos recursos disponíveis para o partido, em janeiro, por exemplo, quando foram distribuídos R$ 63 milhões do fundo partidário às legendas, o PSL recebeu apenas R$ 538 mil, menos de 1% do total. Para efeitos de comparação, os partidos que tiveram maiores repasses foram PT (R$ 8,4 milhões), PSDB (R$ 7,1 milhões) e PMDB (R$ 6,9 milhões).

Valores semelhantes devem ser distribuídos mensalmente ao longo do ano, e mais R$ 1,7 bilhão será repassado aos partidos exclusivamente para os gastos com campanha, numa divisão também proporcional ao tamanho das siglas na Câmara dos Deputados.

3. ‘Infantaria’

Além de garantir mais dinheiro, a aliança com outras legendas é essencial para ampliar a estrutura da campanha nacionalmente, reforça Monteiro. Quanto maior a coligação, a tendência é que o candidato a presidente tenha mais apoiadores nos Estados, concorrendo a cargos de governador, senador e deputado estadual e federal, pedindo votos também para ele.

“Na hora em que a campanha vai para rua, o que ganha guerra é a infantaria. É ter um candidato estadual pedindo voto para você, o cara que vai no rincão, na comunidade. São os partidos com mais estrutura nacional que, em geral, levam seus candidatos para o segundo turno”, observa o professor da Uerj.

4. Militância ativa

Jamil Marques, professor do departamento de ciência política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), também considera a falta de capilaridade nacional do PSL um problema para Bolsonaro, mas acredita que o fato de o candidato ter uma militância mais engajada pode compensar em parte essa deficiência.

“A militância mais apaixonada tem uma papel fundamental, mas não sei se consegue suprir por completo a falta de capilaridade da campanha, porque sua atuação tende a ser menos organizada que a dos partidos”, pondera.

O deputado tem viajado pelo país e comumente é recebido por grupos de simpatizantes entusiasmados em atos gravados em vídeo e posteriormente postados nas redes sociais, alavancando o impacto do apoio.

5. Força nas redes sociais

Autor do livro Do Clique à Urna: Internet, Redes Sociais e Eleições no Brasil, Jamil Marques também considera que, com uma boa estratégia de comunicação, Bolsonaro pode compensar em parte a falta de tempo de TV. Além disso, nota ele, é comum que o conteúdo que circula nas redes sociais acabe repercutindo nos veículos de televisão e rádio, chegando a pessoas mais velhas ou em áreas mais remotas, cujo o uso de internet tende a ser menor.

6. Limites do discurso radical e do antilulismo

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, a força de Bolsonaro vêm do seu discurso anticorrupção e de combate a violência, temas que têm despertado especial preocupação entre os brasileiros. Além disso, sua ascensão acompanha um movimento global de fortalecimento de forças conservadoras, nota Rosemary Segurado.

No entanto, o radicalismo do seu discurso tenderia a afastar o eleitor mais moderado, afirmam os cientistas políticos. Após apresentar contínuo crescimento do deputado, a última pesquisa Datafolha mostrou Bolsonaro estacionado entre 16% e 20%, a depender de que outros nomes estarão na disputa. Nos cenários sem Lula, a maioria dos votos do petista se distribui entre Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT).

Outra pesquisa do Datafolha, divulgada em julho passado, indicou que 10% do eleitorado brasileiro está alinhado com pensamentos de direita e outros 30% são de centro-direita.

7. Pulverização

Jairo Pimentel considera que a chance de Bolsonaro chegar ao segundo turno aumenta se a eleição ficar muito pulverizada, com vários candidatos competitivos. Isso dividiria os votos, permitindo que o deputado passasse para a etapa seguinte mesmo sem conseguir ultrapassar muito o suposto patamar que define o voto mais conservador no Brasil, em cerca de 20%, segundo as pesquisas.

8. Bolsonaro paz e amor?

Um possível fator que poderia beneficiar a candidatura de Bolsonaro seria a adoção de um discurso mais moderado que, claramente, se distancie de pronunciamentos radicais sobre temas como a ditadura.

Da mesma maneira que seu apoio cresce graças as redes, é também como consequência dos “virais” que parte do público desenvolve sua rejeição ao político.

“Só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil! Começando com FHC! Não deixa ele de fora não!”, diz o trecho de uma entrevista com ele, então deputado pelo antigo Partido Progressista Reformador (PPR). A gravação foi ao ar na TV Bandeirantes do Rio de Janeiro, em 1999, e viralizou na internet este ano.

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