Tenho treino de corrida e busco a planilha para ver o que devo fazer. São 8 kms com muita inclinação, com batimento cardíaco em ritmo 2 (até 150 bpm). Tudo bem! Coloco o relógio com gps acoplado, que programado me dá o treino exatamente como prescreve a planilha.

Saio para a corrida. Com pouco mais de 3 kms, depois do aquecimento, o relógio já me avisa que estou abaixo do ritmo planejado. Aperto o passo, me corrijo colocando a corrida dentro do exigido pela planilha.

Depois de mais de 13 anos de rua, driblando carros, buracos, cachorros, gente mal humorada, que não gosta de corredores, sigo por um trajeto já conhecido, onde sei que vou encontrar a inclinação pedida pelo treinador e transferida para o meu pulso, me dando ordens agora do relógio. Além dos obstáculos naturais do treino, tenho lá em cima um satélite que me observa. Com cara de quem espera meu primeiro erro para avisar com sinais de “bip”.

A corrida segue e ele vai me fiscalizando, não me deixando sair do objetivo proposto. Olho pra cima, e numa nuvem parece que vejo a cara do meu treinador observando.

Logo nos primeiros quilômetros, no início da primeira inclinação, forço para entrar no ritmo. O batimento vai um pouco além do proposto. Imagino que é melhor com crédito do que com débito. Nada disso, diz ele. O cara lá em cima me chama novamente a atenção. Avisa que não devo me exceder. A inclinação que faço é longa, de quase 3 kms. Vai faltar perna para o resto , estou só no começo. No final, tenho uma reta, uma descida e uma nova subida, não muito íngreme, e mais adiante novas subidas. Chego nelas e assim segue o treino entre “bips” acertos, desacertos, inclinação, e o rosto do treinador agora na tela do relógio. Há algum tempo é assim , mas não precisa.

Primeiro é bom se convencer que depois destes avanços todos da tecnologia, estas ferramentas colocam qualquer um nos “trilhos” e cada um dentro da sua capacidade e objetivos. A precisão está nos kms pecorridos, no batimento, na altimetria, ritmo e o que você quiser. É só persolanizar o treinador, quer dizer o relógio.

Se o seu técnico é como o meu, ele tem um site com um link para você descarregar o treino registrado no relógio. Lá na frente os dois vão conversar e o relógio como bom fofoqueiro, te entrega ao treinador. Sim, porque ali fica estabelecida a ponte entre seu relógio e o treinador. Um Big Brother do esporte.

Como fator que determine o seu rendimento, isso é bom, mas para quem gosta de privacidade, não. A sensação é de invasão ao seu mundo. E aí entra uma outra história. Se você treina para manter o peso, corre, caminha, nada ou pedala porque gosta, apenas faça. Arrume alguém para te orientar. Diga a ele exatamente o que quer. Não caia na tentação de arrumar um treinador destes de pulso. Eles custam caro, não precisa da tecnologia de ponta se a pretensão é só saúde. Compre um destes relógios mais baratos, com frequencímetro, que vai te dar apenas as informações do batimento cardíaco e o tempo de exercício.

Esta é a grande diferença entre se divertir fazendo exercício ou treinar para algo, com objetivo em rendimento e performance. E esta diferença está na personalidade de cada um. Se você é competitivo, um dia vai treinar para correr melhor e ai o treinador de pulso e um personal treiner, serão seus aliados. Vão te ajudar e você será um atleta. Do contrário, se o seu objetivo é apenas perder peso e manter a saúde, então sonhe mais modestamente e não gaste com bobagem que um dia estará largada num canto do seu quarto, ou você terá ficado maluco, olhando para o relógio achando ele a cara do seu treinador.