Por Marina Sequinel e Denise Mello

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Cerimônia é acompanhada por milhares de fiéis. Foto: AFP Photo

Ao meio-dia em ponto, de segunda a sábado, há 35 anos, a voz do papa João Paulo II acompanha o radialista Luiz Carlos Martins da Rádio Banda B AM 550. Hoje, é a voz de um santo. O pontífice polonês Karol Józef Wojtyła foi canonizado neste domingo (27) em uma cerimônia solene no Vaticano realizada pelo papa Francisco.

João Paulo II comandou a Igreja de 1978 a 2005 e é o terceiro pontífice proclamado santo nos últimos 100 anos. Na mesma cerimônia, o italiano João XXIII, que ficou no papado de 1958 a 1963, também foi canonizado. Milhões de pessoas acompanharam a cerimônia na praça de São Pedro, marcando uma demonstração de fé única e eterna. “Desde o começo eu percebi que ele tinha uma luz diferente, que era uma pessoa iluminada, muito forte. Justamente por isso era conhecido aqui no Brasil como João de Deus”, disse Martins.

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A benção do João de Deus acompanha Luiz Carlos Martins há 35 anos. (Foto: Diego Singh)

O papa sempre foi muito carismático e capaz de seduzir as multidões. Foi o que fez no Brasil em três ocasiões. A mais marcante visita foi a primeira, em 1980, com passagem por Curitiba. No dia 5 de julho, ele chegou no Aeroporto Afonso Pena e realizou um percurso em carro aberto até o estádio Couto Pereira, onde 70 mil pessoas o aguardavam para a cerimônia religiosa. Essa foi a maior concentração pública em recinto fechado que já aconteceu no Paraná.

No dia seguinte, o Papa João Paulo II realizou a Santa Missa no Centro Cívico, com um público estimado em um milhão de fiéis. Em uma época em que a preocupação com atentados era menor no país, uma cena registrada pelas câmeras mostrou um menino driblando a segurança e ganhando um abraço emocionante do papa. Ele ficou 24 horas na cidade. Luiz Carlos Martins, na época apresentador da Rádio Clube, transmitiu toda a visita e ainda lembra da emoção que sentiu.

“Eu e o Durval Leal, narrador de futebol, que hoje já é falecido, transmitimos toda a caminhada de João Paulo II para a rádio. Desde o estádio do Couto até a missa no Centro Cívico. Foi tudo muito bonito. A presença dele é tão forte que eu a sinto até hoje”, destacou Martins. A admiração e a fé em João Paulo II ganhou força para o radialista antes mesmo da visita dele ao Brasil em 1980.

Quando ele descorbiu que o pontífice vinha para o Brasil, fez algumas pesquisas e encontrou um disco do papa rezando em português. Ele pegou, então, um trecho da oração e estabeleceu o horário da benção de João de Deus na rádio. Desde então, sempre ao meio-dia, milhares de fiéis acompanham o Momento da Oração, que passou para a Banda B desde a inauguração da emissora em 1999.

“Muitos ouvintes nos mandam depoimentos e contam que colocam um copo dágua ao lado do aparelho de rádio, para ser abençoado ao som de João de Deus. Há, ainda, muitos relatos de graças recebidas e milagres devido a oração. A partir daí eu tive certeza que ele é realmente um santo. Ter a voz dele todos os dias é um presente, uma gratificação enorme, não existe algo igual no mundo”, completou Luiz Carlos Martins.

Milagres

Dona Edna é uma das ouvintes que todos os dias coloca o copo d’água ao lado do rádio no Momento da Oração da Banda B. Em 1980, estava entre os milhões de fiéis que foram até a Praça Nossa Senhora de Salete para ver de perto o papa João Paulo II. Ela carregava no colo o filho Juliano, de apenas um ano de idade.

Ela começou a escutar a benção de João de Deus por um motivo especial: agradecer a graça que o filho recebeu após ter sido atingido por estilhaços de bombas caseiras, aos nove anos. “Ele perdeu toda a pele do rosto e ficou com o nariz deformado. Na ocasião, eu rezei muito para que ele ficasse bem e sem sequelas. Foi quando eu prometi orar pelo resto da vida para o papa”, relatou dona Edna à Banda B.

Vinte dias depois do acidente, quando os médicos tiraram os curativos, o rosto do menino estava perfeito, sem nenhuma mancha. “O próprio médico falou que a recuperação do Juliano tinha sido um milagre. Desde então, eu acompanho o Momento de Oração e até hoje eu agradeço pelo meu filho, e vou agradecer enquanto eu viver”.

Caminho rumo à santidade

O caminho rumo à santidade tem três etapas: a primeira é ser proclamado venerável servo de Deus, a segunda, beato, e a terceira, santo. Venerável Servo de Deus é o título que se dá para uma pessoa morta que, reconhecidamente, viveu as virtudes de maneira heroica.
Para que um venerável seja beatificado é necessário que se tenha produzido um milagre pela sua intercessão. Enquanto que, para ser canonizado, é preciso um segundo milagre, que deve ocorrer após a beatificação.

Os dois milagres de João Paulo II foram comprovados por uma comissão do Vaticano e confirmados por decretos dos Papas Bento XVI e Francisco. A beatificação, após a comprovação do primeiro milagre, foi realizada em 1º de maio de 2011, seis anos após a morte do pontífice. O caso é da freira francesa Marie Simon-Pierre, que alegou ter sido repentinamente curada do mal de Parkinson, pela intercessão do papa, em julho de 2005.

Já o segundo milagre foi registrado na Costa Rica, com uma mulher cuja identidade é mantida em segredo, que diz ter sido curada de um aneurisma cerebral após pedir a ajuda de João Paulo II.
Para Luiz Carlos Martins, a felicidade pela canonização de João de Deus é imensa. “A benção dele vai continuar sempre na rádio, agora de uma maneira mais especial ainda, pelo São João Paulo”, concluiu ele.