Apenas quatro dos 26 policiais militares acusados de matar 15 presos que ocupavam o segundo pavimento do Pavilhão 9 da antiga Casa de Detenção do Carandiru prestaram depoimento na tarde de hoje (19) no Fórum da Barra Funda, em São Paulo, onde ocorre o julgamento do Massacre do Carandiru. Os demais decidiram permanecer em silêncio. Todos, porém, alegaram inocência.

Durante o interrogatório, os quatro policiais disseram ter ouvido disparos dos detentos antes de entrar no Carandiru e que a operação policial no local foi necessária. Além disso, alegaram que houve necessidade do uso de armas de fogo no pavilhão porque os presos resistiram à ação policial e revidaram. No Massacre do Carandiru, ocorrido no dia 2 de outubro de 1992, 111 detentos morreram.

Os primeiros militares a falar foram o então capitão da Rota Ronaldo Ribeiro dos Santos e Aércio Dornelas Santos, que era tenente na época do massacre. Também foram ouvidos o então sargento Marcos Antonio de Medeiros e Marcos Ricardo Polinato, na época soldado da Rota.

Os dois primeiros disseram que a ordem para a entrar no Pavilhão 9, a fim de conter a rebelião de presos, foi dada pelo então comandante da ação, o coronel Ubiratan Guimarães. Um dos policiais interrogados, o sargento Medeiros, foi o único que confessou ter usado a metralhadora na ação. Já o capitão e o tenente falaram que carregavam uma metralhadora para caso de necessidade, mas que não a utilizaram, embora tenham admitido ter feito “três ou quatro disparos” de arma de fogo (de revólver) na direção dos detentos.

Todos negaram que os tiros tenham sido dados do corredor (onde se encontravam os policiais) para dentro das celas, como alega o Ministério Público (MP). Órgão defende a tese de que não houve confronto confronto com os presos, e que os policiais atiraram com os detentos rendidos.

Durante o depoimento, o soldado Polinato disse ter sido ferido na operação. Ele acrescentou que não havia como entrar no local sem o uso de armas de fogo. A mesma posição foi manifestada pelos demais policiais ouvidos. “Não havia outra alternativa senão o uso de armas de fogo pelos policiais. Era um ambiente extremamente hostil”, disse o então capitão Aércio Dornelas Santos.

O julgamento do Massacre do Carandiru, que começou na última segunda-feira (15), prossegue amanhã (20) com os debates entre defesa e acusação. Em seguida, os sete jurados irão se reunir para decidir se condenam ou absolvem os policiais.