Médica Virginia Soares de Souza ao ser presa

O Núcleo de Repressão aos Crimes Contra a Saúde (Nucrisa) entrega nesta segunda-feira (4), ao Ministério Público do Paraná (MP-PR), o inquérito sobre as investigações em uma das Unidades de Terapia Intensiva do Hospital Universitário Evangélico. Em nota, o Departamento de Polícia Civil, informou que os prazos legais seriam cumpridos. A Polícia também criticou a forma como foi divulgada parte dos autos do inquérito. No início das investigações, o Nucrisa defendia o sigilo das investigações, posteriormente derrubado pela Justiça a pedido da defesa de uma das médicas presas.

No trecho de abertura, a nota diz: “O Departamento da Polícia Civil lamenta que pessoas que, em razão da profissão, possuem cópias dos autos de inquérito policial que apura mortes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) geral de um hospital de Curitiba, induzem os meios de comunicação divulgando em uma oportunidade a errata, para posteriormente divulgar a verdade contida nos autos com o objetivo sórdido de denegrir a imagem da instituição policial civil e tumultuar o andamento das investigações”.

Defesa

O criminalista Elias Mattar Assad, que defende a médica Virgínia Helena Soares de Souza, apontada como a principal responsável pelas antecipações de mortes na UTI, ataca veementemente a investigação, e aponta o que seriam falhas no inquérito. Na sexta-feira (1º) ele denunciou que provas importantes — prontuários médicos da UTI investigada — foram levadas pela polícia, o que pode caracterizar contaminação, já que o correto, conforme ele, seria que cópias autênticas tivessem sido levadas ou deixadas no Evangélico. O advogado disse que entraria com uma “declaração de ilicitude na obtenção de provas”. Os quatro médicos e uma enfermeira, suspeitos dos crimes, permanecem presos.

Entrevista

Em entrevista ao UOL na sexta-feira, o irmão da médica Virginia Helena Soares de Souza, o general da reserva Abelardo Prisco de Souza Junior, 63, disse que ouviu da irmã a frase: “Minha carreira profissional foi destruída.” Aberlardo, que vive em Santos (72 km de São Paulo), no litoral paulista, esteve em Curitiba para visitar a irmã. “Evidentemente, ela está muito emocionada, abatida, mas muito segura, coisa que sempre foi”, afirmou.

“Minha irmã não é uma médica mercenária. Jamais aceitaria uma ordem para liberar um leito do SUS [Sistema Único de Saúde] para um paciente atendido por convênio. Só tem um emprego (na verdade, Virginia atua como prestadora de serviços, sem vínculo empregatício, no Evangélico), com dedicação exclusiva”, afirmou Abelardo em outro trecho da entrevista.

“Virginia não tem carro, vive num apartamento alugado em Curitiba. A insegurança patrimonial dela, aliás, sempre me inquietou. Ainda mais por conta da crise no Hospital Evangélico”, disse. A instituição enfrentou seguidas greves de funcionários, nos últimos meses, por conta do atraso no pagamento de salários. “Mas ela seguiu na labuta.”

Revolta

Desde a prisão de Virginia, que chefiava a UTI geral do Evangélico desde 2006, dezenas de pessoas foram à polícia depor espontaneamente sobre o caso. Boa parte são pessoas que passaram a considerar suspeitas as mortes de pessoas queridas. Outro grupo foi prestar solidariedade e defender a médica – caso de uma costureira dela.

Do primeiro grupo, consta uma denúncia de que Virginia teria “antecipado a morte” do próprio marido, também médico intensivista, em 2006. “É um absurdo essa história”, revoltou-se Abelardo. “Depois de visitar minha irmã na cadeia, fui ao hospital, e um dos diretores clínicos me disse que Virginia nunca atuou nesse caso. E que tentaram reanimá-lo por duas horas”, falou.

O marido de Virginia morreu em decorrência de um câncer abdominal, que tratava havia dez anos. Só nos últimos dias de vida, porém, foi levado ao Evangélico – antes, chegou a estar inernado na UTI de outro hospital em Curitiba. A reportagem procurou o Evangélico. Nenhum médico quis conceder entrevista, mas a instituição informou que a médica estava em casa no dia da morte do marido.

Também causa revolta ao militar o erro cometido na transcrição das interceptações telefônicas feitas nas linhas da casa de Virginia – a própria polícia admitiu que grafou-se a palavra “assassinar” quando a médica disse “raciocinar”. “Me parece má-fé. E, se for, desqualifica o trabalho [de investigação] que foi feito. Não sou idiota nem burro para desqualificar a polícia. Ela é necessária, e temos que esperar que seja a melhor possível. Mas é passível de equívocos, por ser formada por seres humanos.”

Abelardo levanta outro ponto. “Assassinar não é uma palavra dita usualmente. As pessoas falam matar. Até minha esposa notou isso. Ela, aliás, está muito abatida, não aceita o que está acontecendo, acha que a coisa toda está sendo tramada [contra Virginia]”, desabafou.

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