Reconhecido internacionalmente como importante ferramenta de proteção do solo, o sistema de plantio direto (SPD) teve espaço privilegiado na 3ª Reunião Paranaense de Ciência do Solo, realizada em Londrina-PR, que termina nesta quinta-feira (9), sendo citado com frequência em conferências, palestras e debates. O tema foi ainda objeto de um painel exclusivo, com a participação dos pesquisadores Ricardo Ralisch, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e Rafael Fuentes Llanillo, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), juntamente com o engenheiro-agrônomo Joaquim Mariano da Costa, ligado à Coamo Agroindustrial Cooperativa, de Campo Mourão.

Opinião recorrente em todo o evento, a falta de rotação de culturas, a falta de cobertura ou cobertura insuficiente e o revolvimento do solo são elencados como os principais inimigos do sistema e que acarretam problemas como a erosão do solo, que vem sendo observados em diversas áreas. O processo erosivo do solo foi justamente o principal motivo que levou agricultores a adotarem o plantio direto em meados da década de 1970.

A rentabilidade da produção agrícola pode ser uma das causas dos problemas que afetam o SPD. Segundo Ricardo Ralisch, o êxito da atividade é medido por sua rentabilidade. Como o plantio direto requer práticas continuadas e dedicação e o retorno econômico é lento e pouco perceptível, os produtores muitas vezes não persistem no sistema e os danos ao solo aparecem.

Ralisch iniciou a palestra fazendo um histórico sobre o processo de implantação do SPD. E enriqueceu o debate recomendando uma reflexão sobre os motivos que levam muitos produtores a não o adotarem de maneira efetiva. “É preciso avaliar a situação real dos produtores, que sofrem a pressão dos compromissos que vencem ao final de cada safra”, diz. Segundo o pesquisador, os agricultores optam por sistemas que garantam receita.

O pesquisador afirma que o produtor muitas vezes toma decisões a partir da sugestão de estratégias de marketing de empresas vendedoras de insumos. “Muitos retiraram os terraços, o que provoca danos ao solo”, exemplifica.

Para o pesquisador, a questão vai além da propriedade. “Precisamos pensar globalmente para solucionar as dificuldades”, enfatiza. A solução, segundo ele, passa pela pesquisa e por políticas públicas que atendam as necessidades dos agricultores. Ele cita ainda a possibilidade de linhas de crédito para custear práticas conservacionistas com condições diferenciadas. Porém, ressalta que essas alternativas esbarram na burocracia e em dificuldades para a comprovação do destino do crédito.

Ralisch afirma que o futuro do SPD depende de mudança. “Precisamos pensar qual o plantio direto estamos fazendo e devemos buscar a qualidade”, diz. Ele até sugere a criação de um novo sistema de produção, com meios efetivos de avaliação.

Rafael Fuentes LLanillo descreveu os avanços e limitações do sistema. Entre os problemas citou a retirada dos terraços, a falta de cobertura e a resistência de plantas daninhas aos herbicidas, além de semeadoras inadequadas, que prejudicam o solo.

Segundo o pesquisador, ao contrário do que preconiza a técnica, agricultores limitam o cultivo à soja e milho no verão, este numa escala cada vez menor, e ao milho safrinha no inverno. “A área do milho safrinha já ultrapassou os 2 milhões de hectares”, afirma, lembrando que alternativas de inverno como aveia, branca, triticale e outras não vêm sendo adotadas pelos produtores. Por outro lado, áreas de milho no verão vêm perdendo lugar para a soja.

Fuentes ressalta que o produtor deve se empenhar em adotar o SPD integralmente, o que vai evitar prejuízos. “Muitas vezes uma única chuva leva embora o trabalho de 20 ou 25 anos”, afirma.

Ele relata que o enfrentamento das questões atuais inspirou a criação do Grupo Estadual de Plantio Direto com Qualidade, que engloba instituições como Iapar, Emater-PR, Federação da Agricultura do Paraná (Faep), Crea-PR, Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), Embrapa, Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha (FEBRAPDP), Itaipu e Universidades.

As ações do Grupo visam qualificar o plantio direto, adaptar recomendações sobre o plantio direto, sistematizar o conhecimento e capacitar técnicos e produtores, aplicar a Lei de Uso do Solo para quem gerar dano, criar sistema de premiação para o bom manejo.

Uma viagem de estudos a algumas áreas do Estado e a realização de um seminário, reunindo várias instituições e entidades geraram recomendações. O estudo propõe o retorno da pesquisa para adaptar as práticas de controle de enxurradas, demonstração aos produtores das vantagens financeiras e ambientais da rotação de culturas, retorno de ações para o uso de práticas de controle da erosão nas microbacias. Também propõe que as cooperativas sejam incentivadas a dar suporte à comercialização de produtos da rotação de culturas para consolidar as vantagens financeiras e ambientais.

Acrescenta ainda como proposição estimular a certificação do SPD com qualidade para pagamento de serviços ambientais e outras formas de premiação, além de articular com o sistema financeiro processo de premiação pelo SPD de qualidade e pelo uso de práticas de controle de enxurradas.

Na terceira parte do painel, o técnico da Coamo, Joaquim Mariano da Costa, fez detalhado relato sobre a história e os pioneiros da implantação do sistema na região de Campo Mourão. Ele mostrou os desafios enfrentados no início da década de 1970 em áreas degradadas, com erosão e voçorocas.

A 3ª Reunião Paranaense de Ciência do Solo é promovida pela Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (Nepar), com organização do Iapar. Apoiam o evento o Londrina Convention & Visitors Bureau, Emater, Embrapa, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Capes, Fundação Araucária, UEL, UEM, UEPG.