Por Sérgio Brandão *

Eu não sei dizer há quanto tempo a gente não se mexia tanto como nos últimos 30 dias. Mexer não é bem a expressão, mas que também cabe neste caso, já que o espaço aqui é para o esporte. Esporte, não, futebol. Sim, porque como já disse, não considero futebol um esporte.

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Foto: Juliano Cunha – Banda B

Como diz um amigo, Maurício Miau: “… e lembrar daqui há muitos anos que tudo começou por causa de 20 centavos.” Sim, foi por 20 centavos que os paulistas começaram com a marolinha, que virou uma onda ainda em São Paulo, para depois ganhar as principais capitais, mais adiante todas as capitas e, hoje todos batem o pé por alguma razão.

Parece que o Brasil voltou a tomar gosto pelo protesto. Percebeu a necessidade de reclamar quando se sente enganado e insatisfeito. Junto com os protestos liderados pelo Movimento Passe Livre, de São Paulo, outros tantos pegaram carona e também foram para as ruas reclamar da Pec 37, pediram a saída de Feliciano, ironizaram a cura Gay… Renan Calheiros, políticos em geral e por ai foi.

Sem saber, gordinhos, gordinhas, magricelas e magricelos, bateram pernas em passeatas de uns bons quilômetros, queimando algumas calorias pelo Brasil a fora. O Brasil se mexeu. Nem consigo imaginar isso em números calóricos, em benefícios que trouxe à saúde de cada um que esteve nas ruas gritando caminhando, cantando, além de exorcizar os demônios que incomodavam há anos.

Se você tomou gosto pelo protesto, pense mais um pouco e avalie bem. Quem sabe seu organismo também tenha gostado da atividade física e agora que começou, é só manter. Com protesto ou não, o começou já foi, agora é só continuar.

O mês de junho vai para a história do Brasil, como mês em que o país inteiro usou o futebol para se unir em torno de várias causas. Como tudo por aqui, em alguns momentos a coisa descambou, mas logo acharam o rumo. Uma população dentro e outra fora dos estádios gritou o nome do país e cantou o hino nacional até ser ouvido. Políticos e a FIFA tiveram que parar e ouvir o que era gritado, dentro e fora dos estádios.

A FIFA, que pouco nos importa, ouviu por educação, e não entendeu nada. Os políticos? Alguns, parece que entenderam, outros não, mas muitos ainda se fantasiam de árvore, fazendo de conta que a conversa não é com eles. Subestimam a inteligência da gente. Os gritos das ruas pedem principalmente que em Brasília tenha algum efeito moral, as bombas que ocuparam muitas das nossas noites nestes dias de Copa das Confederações para uns e de protestos para outros. Em torno de uma modalidade, e aqui só podia ser o futebol, o país inteiro disse que já não dá mais para deixar as coisas do jeito que estão.

A esquerda disse que o movimento foi orquestrado pela direita. A direita pegou carona e também gritou. As bandeiras dos dois lados foram impedidas de se juntar a todos os manifestos, justamente para deixar claro que só tinha espaço para a bandeira da pátria. Os partidos se rebelaram. Criticaram o gesto rotulando como uma medida de extrema discriminação. Nem esquerda, nem direita. Movimentos sociais descontentes, mas que usava um momento de atenção do mundo para o pais.

Era com o futebol como pano de fundo, mostrando que as manifestações não surgiram por acaso. Claramente organizado com muita antecedência, mas parece que isso não importa. Não cabe avaliar a origem, mas as razões e que todos sem vínculo partidário, devem aprovar.

Sair da arquibancada e deixar a paixão de lado e expurgar a podridão oficializada e que está incorporada em cada um. O movimento das ruas vem no momento certo. Bem na hora que já nos acostumávamos com tudo isso. Estávamos perdendo o poder da indignação. Neste quase um mês, o Brasil se dividiu em dois. O povo que gritou nas ruas e o povo dos estádios, que cantou o hino nacional e vaiou quem quis tirar proveito político com o futebol.

Se for o caso, voltemos às ruas, para queimar mais umas calorias, mas esta força não pode se perder. Só não perca a medida das coisas. Do bom senso nas reivindicações, na sobriedade nos argumentos. Você tem tudo para ter razão, por isso, não pare!

Sergio Brandão jornalista há 30 anos, trabalhou em várias áreas da profissão, tendo se especializado em comunicação para televisão desde 1983. Hoje é jornalista frela.  Trocou a vida sedentária e seus quase 90 quilos em 2000, pelo esporte. Quase 13 anos depois, acumula em seu currículo dezenas provas de triathon, duathlon, 12 maratonas e inúmeras corridas de rua.