“Pensam que eu sou transexual”. Assim Auri Rodrigues de Souza define o drama que vive há 45 anos. Registrada como sexo masculino, ela passa apuros em lojas, clínicas e qualquer outro lugar em que precise apresentar documentos. Em entrevista à Banda B na manhã desta sexta-feira (26), Auri desabafou sobre os percalços de uma opção errada. “É tão simples, é só trocar, mas torna nossa vida uma confusão”, conta. Ela trabalha no Centro de Referência de Ação Social (Cras), no bairro Sítio Cercado, em Curitiba, como auxiliar de serviços gerais.

Mãe de dois filhos, Auci não sabe como conseguiu registrar o casal. “Eu moro com meu marido há 24 anos, não casei no papel porque não quero passar vergonha. Agora não sei como consegui registrar meus filhos sem problemas”, pergunta.

Como a certidão de nascimento dela está registrada como se fosse do sexo masculino, a lei não poderia permitir que um homem registrasse o filho como sendo a mãe da criança. Esta situação, porém, nunca foi levantada por ela e nem questionada perante a Justiça.

Embora seja chamada por Áurea pelos amigos e familiares, a servidora pública não quer mudar o nome. “O nome é o de menos, só quero provar na minha certidão que sou mulher”.

Situações

Auri coleciona situações constrangedoras, entre elas, em uma clínica de fisioterapia onde foi questionada sobre a opção sexual. “Eu estava sentada esperando minha vez e nada das pessoas me chamarem. Elas entraram na sala da espera e saíam, entravam e saíam. Depois uma pessoa me chamou em um canto e me perguntou sobre o meu registro, foi então que eu descobri que eles estavam esperando um homem para ser atendido”, lembra Auri.

Também, ela conta que não consegue fazer crediário em algumas lojas. “Eu fui fazer uma compra para minha filha e eles ligaram dias depois na minha casa dizendo que eu tinha me passado por outra pessoa porque eu, na verdade, era um homem”. De acordo com ela, correspondências também chegam como saudações: Olá, senhor.

Início

O erro registrado na certidão de nascimento de Auri pode ter origem de um costume comum que acontecia há anos. Filha de um casal que teve mais 12 filhos, o pai esperava ‘acumular’ a vinda da prole para procurar cartórios ou locais de registro. “Na época morávamos no Paraguai, lembro que fui registrada anos depois. Era comum mesmo isso acontecer. Acho que ali, com vários nomes, aconteceu a confusão.

Processo

Em setembro deste ano o processo para a mudança de sexo completa três anos. Incentivada pela coordenadora de onde trabalha, Auri procurou a Defensoria Pública para que conseguir provar aos quatro cantos que ela é sim, mulher.