Por Elizangela Jubanski

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Marcas deixadas pelo cão. Um dos ferimentos no braço, no dia do ataque. Foto: Arquivo familiar

O relato da leiturista da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) Grace de Souza Machado, 32 anos, causa medo e traz resquícios de descaso por parte de donos de cães. Ela foi atacada por um cão da raça pitbull enquanto trabalhava no bairro Roça Grande, em Colombo, na região metropolitana de Curitiba. Embora o ataque tenha acontecido há quase 8 meses, os reflexos psicológicos a afetam bastante. A empresa acredita que, por ora, ela precisa se manter na área administrativa. Hoje, acontece uma mobilização no Centro de Curitiba para a prevenção de mordedura canina.

Há dois anos e meio trabalhando como leitura da Sanepar, mas com experiência de campo também como carteira dos Correios, Grace percorria boa parte de Curitiba e região metropolitana fazendo a leitura em relógios de água. Na manhã do dia 5 de janeiro, após fazer duas casas de um dos lados da rua, a leiturista viu que um dos cães da residência conseguiu abrir o portão com as patas e foi para cima dela.

“Ele ma dava patada na altura do peito para tentar me derrubar, eu usava os braços para tentar afastar de mim, a varinha ele pegou com a boca. Até que ele conseguiu e eu cai. Ele me mordia bastante, enquanto eu tentava proteger meu rosto e meu pescoço. Ele me mordia nos braços, no cotovelo, no ombro, nas mãos, e eu só pensava que ia morrer por causa daquele cachorro. Na minha cabeça eu ia morrer e pensava na minha filha. Mesmo ele em cima de mim, consegui levantar e comecei a gritar. Apareceram dois vizinhos, um tentava puxá-lo pelas pernas, também com medo, e o outro tentava me colocar para dentro da casa dele. Mesmo assim, ele grudou na minha mão e não soltava mais”, descreveu com detalhes à Banda B.

Ensanguentada, a leiturista foi socorrida a um hospital de Curitiba. “Lá no hospital tomei injeção, me fizeram sutura e de aproximação porque para mordedura de cão não tem como costurar. Eu fiquei sete dias sem mexer os braços, não conseguia me erguer da cama porque precisava de força nos braços, meu marido precisou me dar banho, fiquei afastada do trabalho por dias”, lembra.

Reflexos

Com os ferimentos cicatrizando aos poucos, Grace voltou ao trabalho, mas orientada pela médica do trabalho a procurar terapia com psicólogos, que também não a liberou para retornar aos trabalhos. “Estou até hoje fazendo trabalho com psicoterapeuta. Posso te dizer que hoje eu não passo em um lugar, eu não desço do meu carro, se eu vejo um portão aberto na minha frente. Os ferimentos acabam, tenho bastante cicatriz, mas os ferimentos saram. Mas a minha vida nunca mais foi a mesma depois desse dia”, lamenta a trabalhadora.

Campanha

A realidade de enfrentar ruas e casas com cães de grande porte é a mesma para milhares de trabalhadores que saem à campo. Para alertar a população sobre o perigo,  profissionais dos Correios, da Copel, da Sanepar e da Cavo promovem nesta segunda-feira (22) uma mobilização referente ao Dia Municipal de Prevenção à Mordedura Canina, que ocorrere na Boca Maldita (Avenida Luiz Xavier, entre a Rua XV e a Praça Osório), das 12 às 17 horas.

A ideia é sensibilizar a população em torno do tema, chamando a atenção para os riscos a que os funcionários de empresas concessionárias de serviços públicos, a exemplo dos carteiros, estão expostos. Além da instituição da data como dia de mobilização, comemorado oficialmente 17 de agosto, outro ganho para a população de Curitiba foi a sanção da Lei 14.828, em abril de 2016, que estabeleceu a obrigação dos proprietários de cães de garantirem a segurança de carteiros, leituristas de água e luz, coletores de lixo e agentes comunitários de saúde e a responsabilização deles por danos causados pelo animal a terceiros.

Alerta

Para aqueles donos de cães, Grace diz que todo cuidado é pouco. “Nessa casa onde aconteceu isso comigo, os donos estavam viajando, o cachorro estava solto no quintal com um portão trancado com um pedaço de madeira, sem tranca, sem cadeado, sem nada. O animal é irracional, age por instinto e ataca quando sente que está sendo ameaçado, a responsabilidade total é dos donos. E não pensar que o cão é sempre manso, realmente, ele não morde e não faz nada com quem mora na casa, mas com os outros, do lado de fora do portão, é outra coisa”, conclui.