Por Marina Sequinel e Luiz Henrique de Oliveira

Cartão de identificação de Sonia na Itaipu. Ela foi contratada em 1976 e demitida um ano depois. (Foto: Reprodução)

Quarenta anos de espera. Esse foi o tempo que levou para Sonia Castanheira, 71, ficar um pouco mais perto da justiça depois de ter a vida destruída pela Ditadura Militar. Perseguida e demitida do trabalho na Itaipu Binacional em 1977, ela finalmente teve o direito concedido de ser reintegrada na empresa pela Justiça de Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná. A decisão foi proferida no dia 27 de janeiro deste ano pela juíza Érica Yumi Okimura.

Atualmente, Sonia passa por um tratamento de câncer no Paraguai. (Foto: Arquivo pessoal)

“A vida de Sonia foi marcada por muita desconfiança e sofrimento. Quando ela tinha 30 anos, foi contratada para atuar como tradutora na Itaipu, no lado paraguaio. Ela sempre agiu com muita dedicação e era vista como uma funcionária exemplar. Por razões políticas, no entanto, ela foi demitida em 1977, sem nenhuma explicação”, contou o advogado de defesa da idosa, Daniel Gogoy, em entrevista à Banda B na tarde desta quarta-feira (15).

Segundo ele, o sonho de Sonia de trabalhar em uma grande empresa seguia bem até que ela virou objeto de investigação das Forças Armadas brasileiras e paraguaias, que atuavam de forma coordenada na Operação Condor. “Do nada, ela foi tida como uma pessoa comprometida com atividades terroristas e comunistas, enquanto o seu marido foi acusado de contrabandear armas, crimes que jamais foram provados. Ela desconhecia todas essas circunstâncias e só descobriu o motivo da demissão quando foi anistiada em 2012”, completou o advogado.

Além de perder o emprego, Sonia se divorciou e teve que criar duas filhas sozinhas, com o nome manchado no Sistema Nacional de Informação (SNI), órgão de repressão do Exército Brasileiro. “Ela simplesmente foi demitida sem nem saber o por quê, colocada em uma teia de conspirações e tratada como criminosa. Isso é apenas um exemplo que mostra a cultura autoritária nessa época da história do Brasil. A Sonia teve a vida destruída pela ditadura”, finalizou.

“Paguei por um crime que não cometi”

Quarenta anos depois de ser desligada da Itaipu, a idosa passa por um tratamento de câncer em um hospital no Paraguai. Mesmo debilitada, ela luta para conseguir ser readmitida no trabalho. “Não quero que esse processo termine sem que escutem a minha voz e algumas palavras minhas, nunca fui ouvida. Ao iniciar ação contra a Itaipu, pretendi que se faça justiça, pois paguei por um crime que não cometi. Fui condenada durante a ditadura brasileira e a feroz ditadura paraguaia, sem ter uma só prova contra mim. Fui uma das primeiras funcionárias da Itaipu Binacional. Amava a empresa e empreendimento gigantesco. Me sentia orgulhosa de pertencer ao seu quadro. Sempre fui dedicada, leal e correta”, desabafou Sonia enquanto aguardava um procedimento cirúrgico no hospital.

Itaipu recorreu da decisão

O departamento jurídico da Usina de Itaipu recorreu da decisão que permite a reintegração de Sonia no quadro de funcionários. A sentença da primeira instância desconsiderou o pedido da anistiada para que ela recebesse uma indenização mensal da empresa. A Itaipu ainda informou que não fez parte do processo de anistia concedido pelo Ministério da Justiça.