Esta história aconteceu há pouco tempo, mas não ganhou o tamanho que outras histórias menos importantes acabam ganhando. Como a do ciclista Lance Armstrong, sete vezes seguidas campeão do Tour da França, e que teve todos os sete títulos cassados porque Lance assumiu o uso de doping. Esta história também não teve o tamanho da história do atleta velocista, sul africano, Oscar Pistorius, acusado de matar a mulher com quatro tiros de revólver. Muito provavelmente porque a história que conto abaixo, não fala da miséria. Pelo contrário, fala do sucesso do ser humano, entre tantas histórias que o esporte conta, mas que infelizmente acabam não ganhando o mesmo tamanho das histórias trágicas.

É a história do espanhol Ivan Fernández Anaya, de 24 anos, especialista em provas de cross country.

No mês passado, Ivan disputava uma prova no interior da Espanha, quando tentava buscar o primeiro lugar que era do queniano, Abel Mutai, medalha de ouro nos 3.000 mts com barreira, nas últimas olimpíadas.

Abel liderava a prova com razoável dianteira. Metros antes do final, Ivan diz porque ainda é possível acreditar nas pessoas, tendo o esporte como pano de fundo, como exemplo de caráter.

A cena de rara beleza, bem que poderia ser seguida por todos, não só pelos que praticam esporte: pouco antes da linha de chegada, uns 10 metros antes, Abel Mutai confundiu-se com a chegada. Parou no lugar errado achando que já tivesse terminado a corrida. Ivan Fernández Anaya, segundo colocado, se aproximou e, em vez de ultrapassá-lo chamou a atenção de Abel, apontando para onde a prova de fato terminaria. Abel não entendeu e passou a ser empurrado por Ivan. Isso mesmo, Ivan negou-se em conquistar o primeiro lugar da prova naquelas condições, tirando proveito da distração do seu adversário.

Como disse, isso aconteceu a poucos metros da linha de chegada. Era distância suficiente para Ivan ultrapassar o queniano e vencer. Preferiu avisar o colega de profissão do equívoco e ficar com o segundo lugar.

Estamos falando de atletas profissionais, que vivem disso, que vivem de patrocínios, premiação em dinheiro e pódio. Com tudo isso, Ivan ainda preferiu a dignidade, a cara limpa, a vitória sobre um outro ponto de vista. A disputa limpa, prazerosa, que dá origem ao esporte e que ainda conta histórias bonitas como esta, servindo de exemplo a todos e para tudo.

Um exemplo que se fosse seguido com certeza deixaria nossa vida bem mais leve. Na rua, no trânsito, na fila nos postos de saúde, nos bancos, no ônibus…

Colocando acima de tudo o respeito pelo outro.

Se a decisão de Ivan tivesse sido outra, a de tirar proveito da distração de Mutai, quem sabe a notícia não teria tomado um outro rumo: a do cara que vence, mas que para isso alguém precisa perder a qualquer preço.

Histórias como esta, são comuns no esporte amador e profissional, mas as histórias do doping de Armstrong e o crime que envolve Pistorius, ainda vendem mais.