Futebol não é esporte? Não, pelo menos aqui no Brasil, não é mais! Aqui ou em qualquer lugar do mundo, passou a ser um produto bastante rentável. Claro que não é só por isso que deixa de ser esporte, mas principalmente por conta disso ganhou um tratamento muito diferenciado e tomou caminhos que o deixam distante do espírito esportivo, e mais próximo do comercial. Sei que arrumo confusão com jogadores (atletas), profissionais, diretores de clubes e com a crônica esportiva afirmando isso, mas já há muito tempo estabeleci pra mim este conceito. Futebol é um grande negócio, alcançou um status que nenhum outro esporte alcança no Brasil, com exceção do vôlei, que se aproxima um pouco. Os outros esportes não podem ser comparados com o futebol em nenhum aspecto. Dinheiro arrecadado, interesse popular, formação de atletas, espaço na mídia, e por aí vai. Apenas falando superficialmente sobre o tema, já é possível perceber estas enormes diferenças.

Vamos pegar os dois maiores momentos do futebol e do esporte, a olímpiada e a copa do mundo, que coincidentemente serão sediados pelo Brasil nos próximos anos. A copa já esteve pelo continente sul americano 4 vezes, contando com a do ano que vem, aqui no Brasil. As olimpíadas nunca, nem de longe foram cogitadas com organização e realização sul- americana.

Atletas amadores de qualquer modalidade dividem alojamentos improvisados, ganham pratos de comida, vivem quase sempre miseravelmente, principalmente no atletismo, treinam porque alguém viu em alguém, algum talento e por amor ao esporte se dedica ao trabalho de revelação, da lapidação do futuro atleta. Sem equipamentos, estrutura, sem dinheiro, sem apoio nem de governo, nem de inciativa privada. São raros os casos de apoio. Apenas uma elite vive com o dinheiro de grandes grupos econômicos, ou dos chamados “paitrocínios”.

No Futebol, também uma minoria vive de contratos milionários, mas uma grande maioria vive de salários de 5, 7, 8 ou 15 mil reais e ainda reclama. Estes valores, no esporte amador, são destinados a grandes projetos muitas vezes. Qualquer 15 mil ou um pouco mais garante a bolsa de alguém por pelo um ano no atletismo, pro exemplo. No futebol, é salário de um “cabeça de bagre”. Valores bem acima da média salarial da população. Talvez este exemplo sirva para deixar bem claro que o futebol é mesmo um produto diferenciado.

Meu sobrinho, Luiz Felipe, como todo menino de 8 anos, enlouquecido por futebol, sonha em ser um deles. Por mais inocente que seja o sonho de sucesso, fazendo aquilo que gosta, mulheres e fama – exemplos que dão a maioria dos jogadores – existe o sonho do dinheiro fácil da fartura quando o assunto é futebol. Zico, como é chamado meu sobrinho, conheceu um ex- craque, Dirceu Krueger, hoje funcionário do Coritiba. A primeira pergunta que fez ao Krueger quando se encontraram: você é rico?

Gosto de futebol, torço e frequento estádios, mas a glamorização que se criou em torne dele é falsa e não ajuda. Hoje ele vive muito por conta deste glamour. Quem sabe, se novos conceitos forem cultivados, a gente ainda consiga um dia recuperar um pouco do talento que perdemos há muitos anos. Quem sabe, daqui há mais uns 50 ou 60 anos a gente volte a sediar mais uma copa do mundo, pensando em ser campeão e de lambuja dando show. Com novos talentos como Pelé, Garrincha, Didi, Zico, Rivelino, Ademir Daguia, Sócrates, Falcão…

Vivemos hoje a menor produção de craques no futebol brasileiro. Em compensação, o dinheiro envolvendo um jogador mediano é cada vez maior. Mesmo assim, a convocação da seleção brasileira de futebol, ganha espaço na mídia, com transmissão ao vivo. Qualquer outro esporte precisa de um apelo muito mais forte para ganhar este espaço, as vezes até desembolsando um dinheiro que não tem.

Das olimpíadas, é possível falar com projeção e expectativas diferentes. Nossos governos e grandes grupos investem desde já nos talentos que podem corresponder em 2016, mas será apenas isso. O investimento é para agora, apenas para não fazer feio no quadro geral de medalhas, e mesmo assim o empenho é muito pequeno se comparado ao futebol. Hoje, 3 anos antes das Olimpíadas, já sabemos que no máximo podemos sonhar com uma colocação um pouco melhor no quadro geral de medalhas. Não como no futebol, onde mesmo com a seleção não correspondendo, jogando um futebol abaixo do que queremos, muitos ainda sonham com o título na Copa das Confederações e Copa do Mundo.

A ficha ainda não caiu, embora a imprensa em grande parte faça seu papel alertando que não somos mais uma potência futebolística. Mesmo assim, a maioria ainda sonha com o hexa.

A comparação é apenas superficial como disse, mas só com isso já é possível entender que o espaço, o interesse e os sonhos do esporte amador são infinitamente menores. Por isso, no Brasil, futebol é futebol, e o esporte vivido e praticado é outra coisa.