Por Sérgio Brandão*
selinho sheikSeguramente o futebol é a instituição mais machista que existe. O cara até pode engatar um discurso anti-homofóbico, mas se aparecer um gay no time dele, a coisa não vai descer direito. No time dos outros, sim, mas no dele, não. É assim que a maioria se comporta. No time dos outros até é bom porque acaba virando mais um motivo para brincadeira, mas no time dele nem o cara da bilheteria pode ser gay.

Pelo menos foi este o comportamento dos torcedores do Corinthians e do resto do Brasil, com o recente caso Emerson Sheik, quando o jogador postou a foto de um selinho que deu em um amigo. O cara precisou se desculpar publicamente e prometer que a história não se repetiria, para reconquistar a torcida e voltar a ficar na boa com a Fiel.

Um jogador americano, Robbie Rogers, tempos atrás, aos 25 anos, anunciou a aposentadoria porque decidiu assumir a sua opção sexual. Temendo represálias de colegas e torcedores do time que jogava, preferiu não correr o risco e parar de jogar futebol. Hoje, joga no futebol inglês e, é ídolo por lá.

No Brasil já pipocaram vários casos, mas nenhum deles nunca ganhou repercussão, justamente por ser ainda um assunto proibido por aqui. Nunca, nem clubes, jogadores ou colegas de trabalho tocam no assunto, demonstrando o tamanho do constrangimento que o tema pode gerar. É assunto proibido mesmo.

Qualquer torcedor, se perguntado se aceitaria um gay em seu time, de bate pronto vai responder que não é contra. Mais adiante, pensando melhor, acaba admitindo que sim, ser gay é um impedimento para que o atleta vista a camisa do time dele, “mas desde que se comporte como homem” – disse um torcedor estes dias.

Mesmo assim, hoje também pesa a imagem que a pessoa precisa passar para a sociedade. A do cara que cumpre sua obrigação de ser aberto, descolado, conectado com o mundo moderno, sem preconceitos, mas geralmente a conversa é da boca fora.

Pode até não reclamar abertamente, mas sabe que um gay defendendo as cores do seu time pode virar munição para a torcida adversária.

Só que de tanto que se fala e com o tamanho que o assunto ganha por aí, de alguma forma todo mundo já consegui armazenar a informação do preconceito. Já sabemos que o preconceito não é bem vindo e dependendo da manifestação, pode até render cadeia. Então, arrumam um comportamento disfarçado, dissimulado, mas que acaba servindo para um começo da discussão. Quem sabe um dia, este começo ajude a entender e ganhe respeito. Seja melhor entendido deixando que cada faça a sua opção sexual.

Sem dúvida um tema pra lá de difícil para entrar numa roda de discussão quando se fala em futebol. Mas que em algum momento, vai precisar romper esta barreira. A passos bem lentos, mas o futebol também caminha para um dia também deixar de ser machista e aprender a administrar mais estes impasses.

Quando isso acontecer, certamente será mais interessante que as discussões sobre linha de impedimento, pênaltis, faltas e outras tantas discussões que há anos habitam o futebol. Quem sabe, quando este tempo chegar, o tema homossexualidade no futebol, já consiga dividir as atenções com as sugestões mais ousadas de poucos, quando tentam implantar no esporte o uso de recursos mais modernos, que ajudem a resolver os problemas polêmicos que surgem durante uma partida.

Tenho a impressão que agora, neste momento, o futebol não sobreviveria caso o tema homossexualismo viesse à tona. Infelizmente o futebol ainda não tem esta maturidade.

Quem sabe, seja um assunto para ser conversado entre os meus netos ou algumas gerações na frente deles.

O fato é que se um selinho já causa todo este barulho, imagina quando começarem a copiar a atitude do jogador americano, Robbie Rogers neste mundinho ainda muito pequeno? Pena, mas estas coisas ainda não cabem no futebol.

* Sergio Brandão jornalista há 30 anos, trabalhou em várias áreas da profissão, tendo se especializado em comunicação para televisão desde 1983. Hoje é jornalista frela.  Trocou a vida sedentária e seus quase 90 quilos em 2000, pelo esporte. Quase 13 anos depois, acumula em seu currículo dezenas provas de triathon, duathlon, 12 maratonas e inúmeras corridas de rua