Por Elizangela Jubanski e Danaê Bubalo

Um incêndio na noite desta terça-feira (11) atingiu a área de invasão da favela da Portelinha, no bairro Santa Quitéria, em Curitiba, e terminou na trágica morte de uma criança. O fogo começou em uma casa onde três crianças estavam sozinhas. Um delas, de 8 anos, ficou presa no banheiro e foi socorrida em estado gravíssimo por vizinhos. O garoto Eduardo Dominique Oliveira não resistiu e morreu hoje pela manhã (12) no hospital. O Corpo de Bombeiros demorou cerca de 1h30 para chegar ao local.

As casas de madeira ficam próximas a rua Rezala Simão, em uma área invadida há cerca de 10 anos. O fogo teria começado por volta das 18 horas e foi visto pelos vizinhos que correram para tentar apagar. O Corpo de Bombeiros foi acionado, no entanto, com a informação de que os filhos do casal que mora na casa ainda estavam no local, os próprios vizinhos invadiram na tentativa de resgatá-los. Três meninos de 6, 8 e 10 anos estavam dentro da casa. O mais novo e o mais velho conseguiram sair. A terceira criança gritava pedindo socorro, presa no banheiro, enquanto a casa pegava fogo.

Moradores relataram que, enquanto alguns tentaram quebrar as paredes do banheiro, outros enchiam baldes de água para apagar as chamas. A vizinha Maria do Carmo contou à Banda B que após várias ligações, atendentes do bombeiros começaram a desligar os telefonemas de socorro. “A gente não sabia mais o que fazer vendo aquela situação e nada dos bombeiros chegarem. A gente ligava, ligava e chegou uma hora que eles começaram a desligar a ligação”, relatou.

Outro morador que ajudou no resgate da criança, Odilon Marques, se demonstrou revoltado com a demora do Corpo de Bombeiros e o descaso por ser uma comunidade. “Temos um relógio de água para 80 famílias. Se hoje, a gente tivesse pelo menos três relógios conseguiríamos tirar essa criança com mais rapidez e até salvar a casa. Não tinha pressão para encher os baldes. Tivemos que correr com água nas mãos e até se queimar”, relatou o morador, que vive no local há cerca de 6 anos.

A Polícia Militar (PM) chegou na Portelinha antes da equipe do Corpo de Bombeiros. Moradores foram truculentos com a chegada dos policiais e houve discussão. “A gente está aqui nessa região há mais de 8 anos querendo regularização. Já tivemos seis casas incendiadas. Se tivesse sido em um prédio bonito, tinham chego? Por que a gente mora em uma comunidade não tem prioridade?”, critica Marques.

Os vizinhos quebraram a parede do banheiro e resgatam a criança, que estava completamente queimada. Um morador, identificado como Bartolomeu, enrolou a criança em um cobertor e outro rapaz o levou às pressas para o Hospital do Trabalhador, no bairro Novo Mundo. Não há informações sobre onde os pais das crianças estavam.

Já com o fogo totalmente apagado e a criança socorrida, os moradores atacaram o caminhão do Corpo de Bombeiros, que chegou por volta das 19h30. Ninguém se feriu, mas o clima ficou tenso por causa da revolta dos moradores.

A avó das crianças foi até o local e contou que, antes de construir na Portelinha, a família morava em um contêiner. “Agora eles perderam tudo, meu Deus, tudo. Quem puder nos ajudar, temos as crianças. Os três meninos estudavam e perderem até mesmo os materiais escolares que estavam dentro da casa. Ficaram só com a roupa do corpo, perderam tudo”, disse Helena Gonçalves dos Santos.

A criança teve 90% do corpo queimado e foi internada no Hospital do Trabalhador. Horas depois, a criança foi transferida para o Hospital Evangélico, referência em atendimento à vítima de queimaduras, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu na manhã de hoje. O corpo será recolhido a Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba.