Por Elizangela Jubanski e Flávia Barros

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Dias era serralheiro e estava aposentado. Foto: Arquivo familiar

A família do aposentado Pedro Humberto Dias, 71 anos, que morreu após duas horas de espera dentro da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Fazendinha, acredita que a demora foi crucial para a morte dele. Ele chegou às 7 horas desta quarta-feira (17) com fortes dores no peito, recebeu pulseira amarela – pelo Protocolo de Manchester – às 9 horas, mas não resistiu à espera. O aposentado teve uma parada cardiorespiratória, tentou ser reanimado pela equipe de médicos, mas faleceu pouco tempo depois. A Prefeitura de Curitiba afirmou que ele foi chamado, mas não compareceu ao consultório. Mesmo assim, afirmou que um comitê vai investigar o caso para apurar possíveis irregularidades.

O aposentado chegou sozinho à UPA dirigindo o carro dele, por volta das 7 horas. Logo depois, a família foi até o local e relatou que ele sentia fortes dores do peito, mas como a Unidade estava lotada, Dias passou pela triagem apenas às 9 horas – conforme confirma o relatório da UPA.

A filha do aposentado, Débora Dias, conversou com a Banda B e contou que na triagem as enfermeiras disseram não ter sentido o pulso do pai dela. “Ele chegou com início de parada cardíaca, as moças levaram ele pra fazer a triagem e não estavam sentindo o pulso dele direito, mas pediram para ele sentar e aguardar. Ele estava com muita dor no peito, estava muito mal”.

Ela descreveu ainda que o aposentado foi atendido quando caiu no chão e sofreu a primeira parada cardiorespiratória. “Quando a gente chegava para falar com as atendentes, elas falavam para a gente que era para a gente aguardar os procedimentos e deram uma pulseirinha amarela. Ele teve o primeiro surto, caiu e começou a espumar pela boca, isso já era 9 horas da manhã. Ele entrou na sala e os médicos tentaram reanimá-lo, mas já era tarde”, lembra.

A indignação de toda a família pela demora no atendimento foi ainda pior quando, segundo Débora, uma médica disse que ele estava em parada já há algumas horas. “Uma médica disse para mim, escutei da boca dela, que a parada estava acontecendo há algum tempo e que o oxigênio não estava indo para o cérebro. Ou seja, demorou, o atendimento demorou. Eu tenho certeza que meu estaria aqui se tudo tivesse sido feito dentro dessas duas horas”, lamentou.

A família acredita que a demora tenha sido crucial para a morte do aposentado. “Os médicos fizeram tudo correto, tentaram tudo que poderiam fazer, mas o grande problema foi a burocracia do atendimento inicial. A recepcionista te atende, pede para esperar, outra vem mede pressão, não ouve o pulso e manda esperar de volta. Isso foi a grande falha. Meu pai ouvia a Banda B e tinha acompanhado os casos que aconteceram nessa mesma UPA, do Fazendinha, por morte na demora do atendimento. Eu nunca pensei que eu fosse a próxima vítima disso. Não sei de onde estou tirando força para tentar justiça”, finalizou.

Testemunha

A dona de casa Lurdes Rodrigues, que acompanhava o marido para uma consulta na UPA, estava sentada ao lado do aposentado e presenciou o desespero da família. “Ele sentou na cadeira e ficou lá, começou a se sentiu mal e a mulher dele foi falar com as moças e elas não deram atenção. Depois, ele começou a se babar, nisso ele já estava tombando para frente, se babando e caindo. Quando ele passou por nós que ele estava passando de mala, já estava falecendo já”, contou.

As últimas homagens ao aposentado acontece nesta quinta-feira (18) às 13 horas, no Cemitério Jardim da Saudade, no Fazendinha. Dias era serralheiro, deixa quatro filhos e um neto.

Resposta

Segue a nota da Secretaria de Saúde de Curitiba enviada à Banda B: “A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) esclarece que o paciente Pedro Humberto Dias, 71 anos, foi atendido com a prioridade indicada para o caso, na manhã desta quarta-feira (17), pela equipe da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 Horas Fazendinha. Ele passou por avaliação de risco às 9h09 e, diante dos sintomas apresentados, o caso foi classificado como “amarelo” – que, pelo Protocolo de Manchester, adotado internacionalmente em diversos sistemas de saúde, tem o prazo de uma hora para ser atendido.

Às 9h56, o paciente foi chamado algumas vezes para atendimento médico, mas não compareceu ao consultório – quando isto ocorre, os demais pacientes que estão aguardando atendimento são chamados. Dias foi atendido novamente depois de novo contato do acompanhante com a equipe de saúde. Por volta das 11h20, o paciente teve uma parada cardíaca e foi encaminhado diretamente para a sala de emergência da UPA. Após intervenção médica, os batimentos cardíacos foram retomados, porém ele teve uma nova parada e acabou falecendo, às 11h30.

A Secretaria se solidariza com a dor dos familiares e informa que, assim como ocorre com todos os óbitos registrados nas UPAs do SUS Curitiba, o caso será avaliado por um comitê interno para verificar o atendimento prestado. Caso seja constatada alguma falha no serviço ofertado, a pasta tomará as medidas cabíveis”.