O então governador à época em que ocorreu o Massacre do Carandiru, Luis Antonio Fleury Filho, prestou depoimento no Júri Popular sobre o caso, que acontece no Fórum da Barra Funda, em São Paulo. O ex-governador disse não ter dado a ordem para a invasão policial ao presídio, quando 111 presos foram mortos. Ele garantiu que, se estivesse em São Paulo naquela dia, teria dado a autorização.

“Não dei ordem para a entrada. Mas a entrada foi absolutamente necessária e legítima. Se estivesse no meu gabinete, teria dado [a autorização para a invasão da polícia]. A polícia não pode se omitir”, disse ele, durante o depoimento, que teve início por volta das 15h20 de hoje (16).

A Polícia Militar entrou no Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru pouco depois do início de uma rebelião de presos. Segundo Fleury Filho, a informação era de que alguns presos haviam morrido, após uma briga entre os próprios detentos.

Durante o depoimento, o ex-governador assumiu a responsabilidade política pelo episódio, mas negou qualquer outra. “A responsabilidade política do episódio é minha. A criminal cabe ao tribunal responder”.

Em depoimento de 40 minutos, Fleury Filho contou que não estava em São Paulo no dia em que o massacre ocorreu, 2 de outubro de 1992. “Era véspera de eleição municipal e estava em Sorocaba, porque sabíamos que em São Paulo não tinha possibilidade de o meu candidato se eleger prefeito”.

Em Sorocaba, Fleury Filho disse ter recebido um recado dizendo que o secretário Claudio Alvarenga queria falar com ele. “Naquela época não tinha celular”, disse. Liguei para o secretário e ele me falou sobre a rebelião que estava ocorrendo no Carandiru e que o secretário de Segurança Pública da época, Pedro Franco de Campos, estava cuidando do caso.

“Saí de lá (de Sorocaba) de helicóptero por volta das 16h ou 16h30. Quando cheguei no Palácio dos Bandeirantes [sede do governo paulista], descobri que tinha ocorrido a invasão. Liguei, então, para o Campos e perguntei se havia necessidade de a polícia ter entrado. Ele me disse que sim”, contou o ex-governador.

Naquele dia, Fleury disse ter sido informado que a invasão policial no Carandiru tinha provocado 40 mortes. Á noite, a informação foi alterada para 60 mortos. No dia seguinte, domingo de eleição, ele tinha a informação de que haviam 100 mortos. “Pedi então que só informassem o número de mortos quando tivessem o número correto”, disse ele.

Segundo ele, só à noite, às 18h, horário em que as urnas estavam fechadas, ele recebeu a confirmação de que haviam 111 mortos. Na época, a imprensa noticiou oito mortos no massacre e só recebeu a confirmação do número exato de mortos após o término das eleições.

Fleury Filho contou também que os ânimos das tropas policiais se alteraram quando houve a notícia de que o comandante da Polícia Militar à época, Ubiratan Guimarães, foi atingido por um tubo de TV e desmaiado, pouco depois que a tropa policial invadiu o presídio. “Ubiratan foi atingido por um tubo de TV e isso deve ter causado, evidentemente, comoção à tropa”, contou ele.

O ex-governador disse também que não esteve no local do massacre. “Não fui ao local porque não era minha obrigação de governador. É por isso que existe a posição de hierarquia abaixo do governador”, falou.

Ele negou que uma organização criminosa, que atua nos presídios paulistas, tenha sido criada após o massacre. “O PCC, que dizem ter sido criado em razão desse episódio, era apenas um time de futebol até o final do meu mandato (1991-1994). No meu governo, ele não teve espaço para crescer. Ele se intensificou no governo seguinte [governo Mário Covas], quando ocorreram 22 rebeliões em dois meses”.

Fleury Filho foi a quarta testemunha de defesa ouvida nesta terça-feira (16), segundo dia do julgamento. Antes foram prestaram depoimento os desembargadores Ivo de Almeida, Fernando Torres Garcia e Luis Antonio San Juan França.

San Juan França, que era titular da Vara de Execuções Criminais, disse que entrou no presídio após a invasão policial. Ele contou ter visto os corpos de “oito ou nove presos” sendo retirados do local. “Perguntei o que houve (aos policiais). E eles responderam: ‘Confronto. Em vez de se renderem, preferiram o confronto’”, contou o desembargador.

Ele disse também que uma sindicância apurou que houve policiais feridos durante o massacre e que foram apreendidas armas com os presos, entre elas 12 ou 13 armas de fogo, que lhe foram entregues por policiais. “Não entendo como arma de fogo entra dentro do presídio”, disse ele, sobre as apreensões.