Por Elizangela Jubanski

Um caso de racismo ocorrido dentro de uma das lojas franqueadas da marca curitibana O Boticário está sendo denunciado pela enfermeira Juliana Mittelbach, de 35 anos. Em busca de lápis para os olhos, Juliana – negra – entrou na loja da Rua XV de Novembro, no Centro de Curitiba, mas foi informada que não havia o produto. Segundo o relato de Juliana, em menos de cinco minutos, uma amiga – loira – conseguiu três amostras do produto que ela procurava. A história foi publicada na rede social Facebook e viralizou em poucas horas – quase 230 compartilhamentos até o fim da manhã desta terça-feira (25).

Por meio de nota, o Boticário lamentou o ocorrido e disse que já acionou os responsáveis pela loja franqueada para entender o caso e tomar as medidas cabíveis. (Confira abaixo a nota na íntegra)

A enfermeira conta que, na tarde desta segunda-feira (24), a caminho de uma atividade social que participa, a Marcha Mundial das Mulheres (MMM), no Centro de Curitiba, lembrou que precisava comprar lápis para os olhos e a sobrancelha. “Eu estava com uma camisa do movimento, uma calça legging, um tênis e o casaco no meu braço. Quando eu entrei segurando o casaco, tinham três vendedoras dentro da loja que olharam para o segurança, com uma clara preocupação que eu pudesse pegar algo e colocar embaixo do casaco. Nenhum delas veio me atender e não tinha ninguém na loja”, contou à Banda B.

Embora já intimidada, Juliana conta que se aproximou de uma vendedora e pediu os produtos que buscava. “Ela abriu a gaveta, que estava repleta de lápis, mexeu e disse que não tinha lápis preto. Perguntei se tinha de sobrancelha e ela, sem nem procurar, também disse que não tinha. Ela foi e voltou do estoque em menos de um minuto e disse que não tinha na loja naquele momento. Enquanto ela foi no estoque, me senti muito acuada porque as outras duas vendedoras e o segurança me olhavam e eu preferi ficar parada no meio da loja para não pensarem que eu pudesse pegar algo”, relembrou.

Constrangida, a enfermeira relata que deixou a loja e caminhou para se encontrar com uma amiga, uma professora da rede estadual, que também participava do movimento. Ao contar o que tinha acontecido, a amiga decidiu ir até a loja. “As vendedoras apresentaram para ela três opções de lápis, uma caneta para olhos, um delineador. Inclusive, para olhos pretos. Ela questionou o que tinha acontecido e as vendedoras disseram ser engano porque tinham todos os produtos disponíveis”,

A professora chegou a tirar foto dos produtos oferecidos pelas vendedoras, antes de ir embora. “Mas eu preferi não voltar lá, não quero nenhum produto daquela empresa, ir lá para fazer tumulto ou escândalo não queria”.

Pele negra

Recentemente, a marca O Boticário lançou uma coleção Africaníssima, da marca Make B, especialmente para tons de pele morenas e negras. “Eu estava seguindo essa linha, já tinha comprado um perfume, achei muito legal a proposta, mas como atender a um mercado assim se as mulheres negras que entram nas lojas são vistas como suspeitas?”, questiona.

Para ela, a marca O Boticário não preparou os colaboradores para atender a um público-alvo. “Não fez um trabalho de combate ao racismo ou de bom atendimento, de civilidade. Isso dói na alma, o racismo dói muito. Teu dinheiro parece que vale menos do que alguém branco”, completou.

Denúncia

Ao ser questionada pela reportagem da Banda B sobre o Boletim de Ocorrência (BO), Juliana afirmou que pretende realizar em breve, mas não espera que algo seja feito, de maneira imediata. “Ela não fez uma ofensa direta, ela recusou me atender, e a nossa Justiça ainda é muito falha nesse sistema de racismo subjetivo. Mas a gente não pode deixar que isso passe sem tomar as medidas necessárias para que a loja saiba que tem que mudar o perfil de atendimento”, finalizou.

Retorno

A Banda B entrou em contato com a assessoria de imprensa do grupo O Boticário, em Brasília, que informou que a situação narrada não reflete os valores e crenças do Grupo Boticário, que tem entre seus compromissos públicos o repúdio a qualquer forma de racismo. “O Boticário é uma marca 100% brasileira, que ama nossa diversidade e preza pelo respeito em todas as relações. Estamos verificando o ocorrido de forma ampla para assim tomar as providências que forem pertinentes”, informou a empresa.

Antes disso, por meio da rede social Facebook, a empresa já havia enviado a seguinte resposta aos seus seguidores:

O Boticário Lamentamos profundamente o ocorrido e repudiamos qualquer forma de racismo. Somos uma marca 100% brasileira e amamos nossa diversidade. A impressão causada difere totalmente da nossa forma de trabalho e este não é o tratamento que queremos oferecer aos nossos consumidores. Acionamos os responsáveis pela loja para entender o caso e tomar as medidas cabíveis.