Por Marina Sequinel

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Larissa e Ana eram inseparáveis. (Foto: Reprodução/Facebook)

“140° dia sem ela. Ela transborda tanto sentimento bom que é capaz de preencher todas as minhas lacunas. Onde quer que esteja”. Esse é um dos vários textos dedicados a Ana Carolina Menon, de 18 anos, que morreu no dia 14 de junho deste ano, após ser atropelada por uma motocicleta no Centro de Curitiba. A dona das palavras que enchem o coração de quem lê é a Larissa Nicolosi, 18, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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Ana (à esquerda) morreu no dia 14 de junho deste ano. (Foto: Reprodução/Facebook)

Sempre que tem dias difíceis, a jovem escreve poesias e textos sobre a melhor amiga, para homenageá-la e minimizar um pouco a dor da perda. “Eu tento mostrar o que a Ana era para mim e para o resto do mundo. Não acho justo que uma pessoa como ela, por quem eu sinto um amor tão grande, acabe assim só porque não está presente aqui fisicamente”, disse Larissa em entrevista à Banda B na tarde desta quinta-feira (1º).

As duas se conheceram há cerca de seis anos, quando faziam catequese juntas. Desde então, se tornaram inseparáveis. “Na época, eu percebi que nós duas éramos ‘criaturinhas estranhas’ naquele mundo, porque não gostávamos muito de fazer catequese. Batemos o olho e pronto, ali fez-se um laço e nós começamos a nos aproximar. Depois, passei a frequentar a casa dela e estudamos no mesmo colégio, mas ela estava um ano adiantada”, completou Larissa.

Ela contou, ainda, que as brigas entre elas não chegavam a durar 12 horas, porque uma sempre sentia falta da outra. Agora, sem Ana, Larissa tenta passar o peso da saudade para o papel ou para o teclado. “Quando eu tenho tardes ou noite difíceis, escrevo para desabafar. As pessoas estão com você no velório e depois não estão mais e eu acho complicado ficar falando essas coisas para a minha mãe, então eu desconto nos poemas”.

Não existe uma frequência certa para a publicação dos textos. Todo dia 14 de cada mês, no entanto, a data da morte de Ana, a homenagem é obrigatória. Nos demais dias, ela escreve quando sente que está mal. “Eu sempre mostrava tudo o que escrevia para a Ana, ela me passava bastante criatividade. O que eu faço agora é uma maneira digna de manter a memória dela viva”, finalizou.

O caso

A estudante de enfermagem da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC) Ana Carolina Menon morreu no dia 14 de junho deste ano no Hospital Evangélico de Curitiba. Ela estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde o dia 8, quando foi atingida por uma motocicleta no cruzamento das ruas Trajano Reis e Treze de Maio, no Centro da cidade.

A dupla da moto, de 15 e 24 anos, carregava drogas no momento da ocorrência. Na ocasião, o soldado Janz, do 12° Batalhão, relatou que a equipe subia a Alameda Cabral quando percebeu o início da fuga dos bandidos. “Assim que avistaram a viatura, eles furaram o sinal vermelho e começaram a acelerar. Foi difícil acompanhar inicialmente, mas tentando fugir por meio dos carros, acabaram atingido a jovem no local e também caíram”.

Leia abaixo alguns textos escritos por Larissa para homenagear Ana:

169° dia sem ela

“- Mas, Ana, como foi?
– Foi estranho, tudo escuro… Ah, falando em escuro, eu ganhei um gatinho preto agora! Ele fica aqui (passa a mão no ombro)…

*Abraço igual aparece na foto de capa*

– Imagina os que estão passando e me vendo assim, nessa pose…
– Ah é, eles não vão me ver aqui, verdade…
– Eu falo demais com você.
– E eu respondo, mas você só pode ouvir quando a gente tá aqui”

Tava com saudade de te abraçar. Obrigada pelo presente e pelo sonho

140° dia sem ela

ela transborda tanto sentimento bom que é capaz de preencher todas as minhas lacunas.

onde quer que esteja.

136° dia sem ela

É sábado e coisas simples podem acontecer: você chama a sua melhor amiga para sair ou ficar em casa, o que vale é a companhia.
Agora, isso não é mais tão simples. O “ela está no seu coração” não é confortante e nunca será.
É impossível ver duas amigas juntas e não chorar, nem que seja sem lágrima, só por dentro. Aí você começa a sentir uma dor física e toma um remédio, mas percebe que é mais do que até morfina pode amenizar: não tem cura.
O mais perto de amenizar, é ouvir os áudios. A Ana é talentosa, canta bem sem fazer esforço, só coloca sentimento. A Ana é puro sentimento e eu sempre a coloquei num pedestal por achar linda a forma que ela se importava mais com a emoção do que a razão. Eu aprendo muito com isso. Ouço dez, vinte vezes o mesmo áudio e me parto em pedaços em todos eles. Já decorei os timbres e tudo.
E mesmo vendo todas as mídias iguais dia após dia, vejo o quanto ela se reinventa, é a mesma Ana, mas com uma essência decifrável conforme sua estadia no coração de outrem.

Ela é a caixinha de surpresas que eu me contento em continuar decifrando através de memórias antigas e sofro por não conseguir fazer isso através do universo carnal.

Eu sinto a sua falta, não canso de dizer.

obrigada por tudo

O mundo todo devia ter a oportunidade de ter uma Ana.
De conhecer a minha Ana.
Faz mais de 100 dias que a abracei pela última vez, quatro dia antes de tudo acontecer. Ela me agradeceu “por tudo” duas vezes naquele dia em que dançamos molejo e pintamos seu cabelo de, acidentalmente, azul.
“Lari, me dá abraço”
“Ué, o que aconteceu?”
“Nada, só tô feliz por você ser minha melhor amiga e eu quase nunca te agradeço”
“Eu também tô feliz por você ser minha melhor amiga”
A gente “se agradeceu” e foi diferente, não por ter sido o último. Foi quase um ‘até logo’.

Eu continuo feliz por ser sua melhor amiga.

119° dia sem ela

Ela não curte mais minhas fotos, nem coloca “amei”, nem comenta alguma coisa engraçada mostrando que é única e exclusivamente minha melhor amiga. Eu fico esperando, naturalmente, algo desse tipo.
Ela não analisa mais os meus poemas e nem viu o livro – o qual ela incentivou e ajudou a produzir – ficar pronto. Nem a página. E hoje em dia é sofrido escrever uma frase. “Ana, lê e diz o que você entendeu”
Ela não me mandou mais 5 áudios de 55 segundos seguidos, nem me xingou por eu ter dormido ou demorado pra responder. E eu só sei abrir as nossas conversas.
Ela não fala mais que eu teimo muito e eu não falo mais “Ana do céu, como você é mala”.
Ela não vai mais na balada comigo, nem comer em qualquer lugar. Eu tive que aprender a conhecer os lugares sozinha e, pior: não pude contar sobre eles pra ela.
Ela não opina mais sobre os meus crushs. Nem eu os dela. “Espera aí que eu vou falar com esse cara.”
Ela não responde mais quando eu desabafo, nem me dá puxão de orelha. Agora eu clamo por qualquer sinal dela.
Ela não diz mais que eu sou a melhor amiga dela. Eu só sei repetir isso pra cada estranho que aparece.
Ela não vai mais usar um colar de melhores amigas junto comigo, logo agora que iríamos comprar.
Ela não conta mais pra todo mundo que eu passei na “caramba, UFPR MIGA!!!!”. Hoje, eu continuo orgulhosa do quão esforçada e amada ela é.
Ela não vai fazer a tatuagem da xícara e do sachê que havíamos combinado de fazer juntas. Eu fiz uma do seu nome pra nunca mais sair de mim.
Parece que parte de mim evaporou.

Nonagésimo primeiro dia sem ela.

Eu não ligo se há quem cansou de textos disso, se cansou disso, do assunto em si. Eu não me preocupo com a “obrigação” de superar porque, como diria aquela música, “temos nosso próprio tempo” e eu respeito o meu.

Começou a acontecer dia 8.
No dia 9 tínhamos marcado de ir ver Invocação do Mal 2 na estreia.
No dia 10 iríamos na Verdant.
Na outra semana iríamos conhecer a Peppers.
Na outra, a Slainte.
Nas férias, passaríamos tanto tempo juntas… “uma semana você fica aqui e uma semana eu fico aí”.
Antes, as músicas “sorry”, “how deep is your love?”, qualquer uma do Raça Negra e “Cheerleader” nos faziam dançar e cantar em alto e bom tom, hoje elas me calam e me fazem chorar.

Não há clichê no “sinto tua falta”, apenas verdades e meia dúzia de memórias vividas e não vividas.

Dói.

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