* Por Sérgio Brandão

rafaela silva

Rafaela Silca, campeã mundial

A supremacia das brasileiras no quadro de medalhas no mundial de judô, no Rio, como também o sucesso do vôlei feminino no Grand Prix, foi de dar orgulho e nos devolve um status em duas modalidades onde andamos  titubeantes. Isso pra esquecer  participação brasileira no mundial de atletismo, em Moscou, semanas atrás, considerada um fracasso. Além de voltar sem nenhuma medalha, ficou uma história mal explicada sobre a trapalhada de uma das atletas, na passagem do bastão, eliminando a equipe no revezamento 4×100. Uma das meninas saiu dizendo que não foram preparadas adequadamente para a competição, que não se alimentaram direito e ficaram mal acomodadas. As acusações não foram confirmadas pelas companheiras e, foram devidamente contestadas pela Confederação Brasileira de Atletismo. Mesmo assim, ficou claro que ainda estamos anos luz do aceitável para quem está na porta de sediar uma Olimpíada.

Sendo o atletismo a alma, o coração dos jogos olímpicos e com alguma tradição brasileira em muitas modalidades, fica a impressão que ainda não começaram o trabalho de preparação dos atletas, para que nas olimpíadas do Rio, a gente consiga  fazer um papel  no mínimo aceitável.

Coube às mulheres de outras modalidades recuperar um pouco desta auto-estima.

Da sutileza no andar, do toque feminino nas coisas, a graça das roupas, do sorriso, do cabelo bem cuidado, das unhas pintadas, do batom bem passado. Com tudo isso ainda sobra mulher pra ganhar um titulo e nos devolver o gosto pelo esporte.

Não há cortada, levantamento, ou golpe, que por mais brutal que possa parecer, resista ao charme destas meninas do judô e do velei.

Em casa tenho um pouco disso. Uma nadadora e Judoca, ainda de apenas 4 anos, mas que já gasta um tempo do dia colocando estas coisas na vida da gente, sem que se perceba. Lá do alto do meu masculinismo, pra não usar a palavra machista, que acho feia, é possível perceber que a gente não fica mais ou menos homem por isso ou aquilo.

O aprendizado é inconsciente, lento e por isso precisa ser diário. Se não for assim, não acontece.

Logo cedo pode surgir a convocação sutil. As vezes  é só uma opinião sobre a combinação de duas ou uma peça do vestuário. Parece bobagem, mas não é.

São várias convocações para ajudar no uso do batom e delicadezas com cabelo e outras coisas como unhas e roupas. Apesar de ser apenas uma criança, conhece bem o limite do ridículo. Nem pensar em virar motivo de piada porque o batom escorregou (sempre escorrega) e acaba ficando com “boca de palhaço”, como ensinou a mãe.

Pela segunda vez, a judoca medalha de ouro que tenho em casa, me pede para pintar as suas unhas que já descascavam quando visitou a manicure com a mãe, na semana passada.

O serviço precisa ser igual ao da Ana, a moça do salão. A primeira de mão não ficou boa. Além do borrão que escapou pelo dedo, a pintura ficou fraquinha. O aprendizado que na verdade começou há muitos anos, com minhas primeiras quatro mulheres -mãe e três irmãs- me trouxe lá do fundo do baú a lembrança da acetona, ferramenta importante para uma unha bem pintada. Tira tudo e faz de novo, até acertar. Foi assim que no final, tudo deu certo: o polegar, laranja; o fura bolo, azul: pai de todos, roxo; anelar, verde abacate e o mindinho, brilhante.

O trabalho da primeira mão, a direita, termina com a aprovação da dona dos dedos. Enquanto preparo a mão esquerda com acetona, ela seca a direita balançando no ar ajudando com leves sopros na ponta dos dedos. Antes de terminar, faltando os dois últimos dedos, a judoca medalha de ouro, dorme. Agora, sem suas orientações que determinam o caminho do trabalho, fico sozinho.  Uso o bom senso, obedecendo a sequência das cores que usei na mão direita.

Ela acorda no dia seguinte e me chama no quarto. Sorri com cara de aprovação do serviço que não teve sua supervisão até o fim.

Durante o dia, foram outros trabalhos, ajudando a passar o batom e as vezes limpando com guardanapo, o cantinho da boca, pra não ficar “ com boca de palhaço”.

No mesmo dia tem aula de natação. Horrível para as unhas.  “Pai, minhas unhas já estão descascando. Acho que foi a água da piscina – diz ela.

O mundo feminino é bem mais mágico, sutil, bonito, delicado e muito colorido, mas nem por isso menos forte.

O judô que até bem pouco tempo era um esporte só para homens, hoje é orgulho nacional também por conta das mulheres. O vôlei, há anos é o segundo esporte mais praticado, graças a algumas mulheres de unhas pintadas, cabelos arrumados e que lutam maquiadas, de batom e tudo e nem por isso perdem a graça.

* Sergio Brandão jornalista há 30 anos, trabalhou em várias áreas da profissão, tendo se especializado em comunicação para televisão desde 1983. Hoje é jornalista frela.  Trocou a vida sedentária e seus quase 90 quilos em 2000, pelo esporte. Quase 13 anos depois, acumula em seu currículo dezenas provas de triathon, duathlon, 12 maratonas e inúmeras corridas de rua