O zagueiro Hugo Alcântara, de 31 anos, deve ser o novo reforço do Atlético Paranaense para a temporada de 2011. O jogador, pouco conhecido nacionalmente, fez sua carreira no exterior jogando em equipes como Vitória de Setúbal, de Portugal, Cfr Cluj, da Romênia e Montedio Yamagata do Japão, a última equipe pela qual Alcântara atuou.

O experiente zagueiro é natural de Cuiabá e conquistou seis títulos internacionais, dentre eles, a Taça de Portugal e o Campeonato e a Taça da Romênia. Ele ainda deve passar por exames médicos e assinar contrato por 90 dias. Vale lembrar que o zagueiro não poderá atuar pelo Campeonato Paranaense, uma vez que as inscrições para o certame estadual já se encerraram.

No Japão, Alcântara disputou apenas uma partida, isso devido a paralisação na J-League por conta do terremoto seguido de tsunami que assolou o país do sol nascente. Recentemente o jogador deu entrevista ao portal donos da bola. Na ocasião, o boleiro já mostrava vontade de sair do país asiatíco. Confira na íntegra:

Donos da Bola: Hugo, qual a sua localização aí no Japão?

Hugo: Moro em Yamagata, uma cidade pacata que fica a 70 quilômetros de Sendai (onde houve o tsunami). Aqui não existe nem shopping, por isso ia bastante a Sendai.

Vocês sentiram o terremoto? Como aconteceu? Sim, foi muito forte. Foi complicado, viu?

Eu estava deitado no sofá assistindo tevê, quando senti tudo começar a chacoalhar. A tevê ia caindo no chão e eu me segurei na parede para conseguir sair correndo pra fora do apartamento. Os outros vizinhos também fizeram o mesmo, todos correndo. Fiquei muito assustado, com medo do prédio vir abaixo. Só pensei em correr.

E quando tudo terminou, o que passou pela sua cabeça?

Fiquei feliz por tudo ter acabado bem, sem maiores danos a cidade. Pude comprovar que os prédios são mesmo preparados para esse tipo de catástrofe. Foi muito forte, você não tem noção.

Você está aí há pouco tempo, não teve nem adaptação à língua japonesa. Como fez pra se comunicar nessa hora?

Ih, não falo nada em japonês, mas ainda bem que nessa hora eu estava com dois diretores em minha casa. Eles que me ajudaram a entender o que estava se passando.

Quando você soube do tsunami?

Só no sábado, por que na sexta não tinha luz nem telefone para saber as notícias.

Você é o único brasileiro no Montedio?

No meu time tem mais um. Em Sendai tinham mais dois jogadores, mas eles já foram embora para o Brasil.

E a situação hoje aí em Yamagata? O medo continua?

Temos pouca água, comida e gasolina. Sim, até por que depois desse terremoto mais forte sentimos vários outros.

E a ameaça radioativa?

Ah, houve vazamento radioativo e isso pode fazer mal às pessoas. Ainda não está num nivel alto, mas a população está em alerta. Essa usina é em Fukoshima, cerca de 200km daqui. Mas as noticias são de que os ventos levam essa radiação para Tóquio, em 8 horas deve chegar lá. E aqui é mais perto que Tóquio, então esse é meu medo.

O campeonato japonês não tem previsão de recomeço. Você pretende permanecer no país?

Não, não quero ficar aqui. Estou esperando eles dizerem que posso ir. Também espero por vôos. Não há vôos disponíveis.

Você teve ajuda do consulado brasileiro?

Eu não, mas eles estão ajudando outras pessoas, sim.

E como está sua família no Brasil?

Estão preocupados, mas tenho falado com eles a todo o momento.

Como estava o Montedio Yamagata nesse início de campeonato?

Tivemos o primeiro jogo e perdemos. O objetivo do time é fazer um campeonato tranquilo. É um time que está há 3 anos na J-League, primeira divisão, e querem continuar.

Há quanto tempo você já está longe do Brasil e onde mais gostou de jogar?

Estou fora do Brasil há 10 anos. Joguei 6 anos em Portugal e gostei muito de lá, porque Portugal é como se fosse o Brasil. Tem tudo de Brasil: a língua, comida e o campeonato é legal de se jogar. Vive-se bem em Portugal.

O que te levou ao Japão?

Depois de 2 anos e meio na Romênia, pintou um contrato muito bom lá. Quem não quer viver em um país evoluído? Pensei que seria bom e vim.

Mas nada impede que sua passagem seja boa aí.

Ah, mas já quero sair daqui e não voltar. O susto foi muito grande. Sabe, dinheiro não é tudo na vida. Tenho 31 anos e nessas horas a gente valoriza o que realmente importa. Minha mãe está preocupada, minha esposa, meu filho.

Sua família ia se mudar pro Japão com você?

Não, minha esposa ia ficar no Brasil por que está grávida. Meu contrato é de um ano.

Hugo, atualmente o jogador projeta sua carreira almejando sair do Brasil. Você que teve contato com diferentes culturas, recomenda essa saída? Ou começa a ser uma alternativa interessante o atleta que for bem remunerado no Brasil, permanecer aqui?

Acho que as duas opções são ótimas. Uma carreira no Brasil em um bom time de forma bem renumerada, seria ótimo. Se tivesse acontecido comigo, eu não havia saído para a Europa. Mas viver e jogar na Europa também tem sua vantagens: menos cobrança e mais segurança. Acho que as duas alternativas valem a pena.

O que você pensa a respeito do seu futuro?

Quero ficar junto da minha família por um tempo e depois, com calma, ver um lugar que eu possa trabalhar com a cabeça tranquila.

Pode ser aqui no Brasil?

Claro.