Novembro de 2003. Toca o telefone:
– Fala, Cabeção… tudo bem… aqui é o Caio Jr!
Me surpreendi com a ligação, pois já conhecia o Caio do futebol, e de algumas peladas, mas não tínhamos uma grande amizade ainda.
– Opa… tudo bem, Caio… e contigo??? Que manda???
Era um convite para ser seu auxiliar técnico na equipe do Cianorte, que recém havia conquistado o acesso à Série A do Paranaense de 2004. Caio me explicou seus planos, seus sonhos, suas ambições. Foi sincero em dizer que o convite se dava por seu auxiliar até então (Julio César Camargo) não poder ir, pois tinha cargo fixo no Paraná Clube, e não seria financeiramente viável naquele momento ele sair.
Até então o que eu conhecia sobre Cianorte eram coisas contadas pelo amigo – e ídolo – Ademir Alcântara, que é natural de lá. Ele sempre exaltou sua terra, muitas vezes dizendo, em tom de brincadeira, mas com um fundo de sinceridade, que era o melhor lugar do mundo.
De imediato disse sim ao Caio. Acreditei em suas palavras, e acima de tudo, me encantei com o entusiasmo demonstrado. Aquela energia que emana dos vencedores.
– Estou dentro, amigo. Conte comigo, para tudo que me for possível.
Caio então me disse que iríamos à Cianorte, para uma pelada festiva organizada pelo Ademir Alcântara, na AABB de Cianorte, e lá conversaríamos com os dirigentes do clube. Viagem feita, pelada realizada, chegou a hora da conversa com o presidente Marco Franzato e com o homem forte do futebol do clube, Luis Carlos Bersani.
Como o clube tinha um orçamento enxuto, e não previa o cargo de auxiliar, foi levantada a hipótese de que se eu acumulasse os cargos de supervisor da equipe e auxiliar do Caio, estaria tudo certo. Olhei para o Caio buscando uma resposta, que foi imediata.
– Pode aceitar que eu te ajudo no que for necessário.
Então, tudo certo. Junto ao preparador físico Fabiano Xhá – meu amigo de longa data, que já estava no clube na campanha do acesso -, ao preparador de goleiros Vanderlei Colombelli, e ao técnico dos juniores, Claudio Tencati, que em dobradinha comigo seria auxiliar do Caio, estava formada a comissão técnica do Leão do Valle.
Como morávamos no mesmo hotel (no mesmo apartamento, por um bom tempo), nosso contato era total. 24 horas por dia. Durante a fase de montagem do elenco passávamos o dia inteiro ao telefone, contatando futuros atletas para compor a equipe. Trabalho árduo e complicado, pois a equipe era nova, e a grana curta.
Me recordo do entusiasmo, da tenacidade, do empenho do Caio nessa tarefa. Ele convencia os jogadores com um discurso positivo, convicto de que alcançaríamos o sucesso, e que com isso, ele alçaria voos maiores. E proporcionaria aos que estivessem no projeto, seguir junto com ele em clubes de maior expressão.
E se existe algo no Caio que o tornou especial é a capacidade de convencimento. Com um comportamento sério e digno, conseguia passar credibilidade. Pelo seu exemplo de atitude e de personalidade, sempre corretos e honestos, cativou a todos.
com-caio-jr-no-cianorteVeio o Paranaense. E o título de Campeão do Interior (3º colocado no geral), perdendo a semifinal para o campeão Coritiba. Com isso, vaga na Copa do Brasil de 2005. Na Copa, após vencer na primeira fase o CENE/MS, aconteceu o inesquecível jogo contra o Corinthians.
Estreia de Passarela, Tevez e Mascherano no Corinthians. Estádio Willie Davis lotado. O 3×0 no Timão fez o nome do Caio decolar. Perdemos a vaga no jogo de volta, mas o feito inicial ficou marcado em todos.
Mais à frente, fomos – eu e Caio – para o Gama. Passagem rápida, mas intensa. O convívio diário me aproximava mais e mais dessa cara sensacional. O “Saroli” (que era como eu o chamava) foi exemplo:
De caráter, pela retidão, pela transparência. Solidário, sempre tinha a mão estendida a quem precisasse dele.
De amizade, por estar sempre disponível e presente, nos bons e maus momentos. Não me recordo do Caio se exaltando e/ou gritando com alguém. Seja jogador, membro da comissão ou diretoria, funcionário, repórter.
De ser humano, pelos valores íntegros, pela dedicação à família, que era seu combustível e razão de viver.
De profissional, pela dedicação que impressionava. Vivia 100% o momento, os treinos, os jogos. Assistíamos incontáveis vezes os jogos dos adversários, até ele se dar por satisfeito. Sempre foi um grande prazer trabalhar como auxiliar dele, pois em todas as ocasiões Caio valorizava e respeitava a opinião dos seus colaboradores.
Discutíamos à exaustão cada decisão, e quando existia alguma diferença de opinião, mesmo com a minha colocação de que a escolha final seria sempre a dele, provocava o debate até que estivéssemos convictos da conclusão. Sempre me senti valorizado e respeitado.
Após o Gama, Caio resolveu fazer um pitstop na carreira de técnico. Eu busquei outras alternativas profissionais também. Ele retornou logo à cena do futebol e decolou. Por ter vivido quase que sempre longe daqui, nosso convívio se dava somente nos momentos de férias dele. Nas peladas que organizava na quadra onde teve escolinha de futebol por muito tempo.
Como já disse o poeta: “amigo é coisa prá se guardar no lado esquerdo do peito, dentro do coração. Mesmo que o tempo e a distância digam não”. E foi lá, bem dentro do peito, que o “Saroli” ficou guardado. Mesmo longe. Minha amizade, admiração e respeito por ele sempre se manteve intacta.
Hoje choro a partida precoce desse grande amigo. Um acidente brutal e inexplicável nos afasta para sempre nesse plano. Mas, certamente, em algum momento nos reencontraremos do lado de lá.
Obrigado, amigo, por me honrar com a escolha para trabalhar ao teu lado. Obrigado, amigo, por ter me servido de exemplo para melhorar como ser humano, como gente. Obrigado, amigo, por ter me ensinado tantas coisas sobre as artimanhas do futebol. Obrigado, Caio, por tua amizade.
Ainda utilizando o mesmo poeta: “qualquer amigo eu volto a te encontrar. Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar…”