Na contramão do título, o que Passione menos exibiu durante estes sete meses no ar foram paixões convincentes. A começar pelos mocinhos Diana e Mauro, de Carolina Dieckmann e Rodrigo Lombardi. De tão insossos durante toda a história que protagonizaram cenas sem nenhuma química, o autor Silvio de Abreu bateu o martelo e matou de vez a antipática jornalista. Assassinar a própria mocinha é um sinal vermelho que confirma o quanto a história descarrilhou ao longo de seus capítulos. No mesmo núcleo, Mayana Moura, com sua estilosa Melina, nunca convenceu em seus tempos de vilã com uma personagem envolvida por Fred, do sofrível vilão de Reynaldo Gianecchini. Ou seja, pelo menos na fictícia família Gouvea, o amor não se destaca nas cenas do folhetim.

Já nos núcleos mais pobres, Larissa Maciel, a indefectível Maysa da minissérie homônima de Jayme Monjardim quase convenceu com sua Felícia, apaixonada por Totó, de Tony Ramos. No entanto, mais uma vez a falta de química entre o casal os separou e fez com que Silvio de Abreu tomasse uma decisão ainda menos acertada: colocasse Felícia ao lado de Gerson, vivido com opacidade por Marcello Antony. Com isso, a personagem de Larissa quase evaporou da história. E de novo não deu para acreditar em passarinhos azuis sobrevoando a cabeça dos casais.

Nas subtramas cômicas, a “passione” foi bígama e triangular. O indeciso Berilo, do sempre talentoso Bruno Gagliasso, volta e meia aparecia fascinado por Jéssica, de Gabriela Duarte, que interpretou seu melhor papel na tevê até hoje. Em outras cenas, o personagem chafurdava nos lençóis da lourinha Agostina, de Leandra Leal, com a mesma desenvoltura. Para ambas, mentiras sinceras sempre interessaram no decorrer da história e o pouco que houve entre paixão e humor se misturaram, diluídos.

Por falar em mentiras, Mariana Ximenes se superou com sua maquiavélica e ardilosa vilã Clara. Com seu semblante angelical e meigos olhos azuis, a atriz conseguiu conduzir com uma incrível maturidade o caminho tortuoso de uma vilã indefinida, que ora parecia se redimir na história, ora exibia todas as suas garras. Dentre todos os seus venenos destilados, a personagem cresceu ainda mais em cenas onde zombava de amores, romances e paixões arrebatadoras. Tratava qualquer sentimento afetuoso como matéria vil para suas maldades, contrariando, mais uma vez, a intenção do título da história.

No entanto, mesmo sem visíveis paixões, a produção conseguiu obter os mesmos efeitos desse sentimento: perdeu parte de sua lucidez e razão com casais desencontrados em uma escalação problemática. No entanto, mesmo assim, se sobressaiu por majestosas atuações. Quase todas do elenco de terceira idade da história, como Elias Gleiser, Cleyde Yáconis, Flávio Migliaccio, Fernanda Montenegro, Leonardo Medeiros e Aracy Balabanian. Aliás, Leonardo e Aracy formaram um dos poucos possíveis casais onde se demonstrou veracidade nas cenas de um amor impossível perdido na juventude de seus papéis. Um dos raros, belos e pouco explorados traços de romantismo de Passione.

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