Em “Tropa de Elite 2”, quem diria, um “aspira” conseguiu dividir os holofotes do implacável coronel Nascimento de Wagner Moura. Trata-se do cruel major Rocha, papel de Sandro Rocha no longa, dirigido por José Padilha, que já se tornou, em três semanas de exibição (a estreia foi dia 8), o filme nacional mais visto do ano no Brasil, ultrapassando 5 milhões de espectadores.

No primeiro Tropa, sua estreia no cinema, a participação do ator, de 36 anos, resumiu-se a uma cena de um minuto como um sargento que, depois de abrir uma gaveta com dinheiro, dizia: “Quem quer rir, tem que fazer rir”, em resposta a um policial que lhe pedia férias. Agora, Rocha aparece como um dos protagonistas, um major corrupto que vira chefe de milícia na Zona Oeste do Rio.

“No primeiro filme, sua performance foi tão convincente que ficou na memória afetiva do público. Mas foi somente no Tropa 2 que ficou claro para mim que o Sandro não era apenas um ator talentoso, era um ator com muito carisma e ótima capacidade de improvisação”, elogia Padilha. Wagner Moura também se rendeu ao trabalho do colega: “Sandro fez um trabalho extraordinário no Tropa 2. Muito verdadeiro, muito forte. A cena do churrasco é antológica. Sem ele, esse seria outro filme. É muito querido pelos colegas e pela equipe. Ainda vai fazer muito filme bom”.

O sucesso no cinema do morador do bairro de Lins de Vasconcelos, subúrbio do Rio – onde ironicamente não há salas de exibição –, chegou depois de 15 anos de uma suada jornada. Após se formar no ensino médio, aos 17 anos, Sandro entrou num curso livre de teatro para melhorar o desempenho como vendedor de copiadoras. Gostou e fez o profissionalizante. Formou-se em 1995 e correu para a fila da TV Globo, onde já fez um sem-número de pontas em produções como “Belíssima” (2005) e “A Favorita” (2008).

Para sustentar a mulher, a psicóloga Liane Rocha, 42 anos, com quem é casado há 13, as filhas, Mariah, 11 anos, Clara, 10, e o enteado, Luís Fernando, 17, Sandro alternava os bicos na televisão com trabalhos como vendedor de seguros, de móveis e de gás industrial. “Trabalhava de terno e gravata e levava roupa na mala do carro. Quando me ligavam da Globo, eu trocava de roupa num posto de gasolina e corria para o Projac. Gravava e voltava para o terno”, lembra ele.

Em 2000, Sandro ficou desempregado e um amigo o levou para fazer teste para ser o palhaço do McDonald’s. “Fui um dos dez Ronalds no Brasil. Passei dois anos viajando para fazer shows em escolas públicas e para crianças com câncer. Eu adorava, ficava em hotel cinco estrelas”, diz. Mas, se pintava uma pontinha na Globo, ele dava um jeito de trocar escalas com os colegas de peruca vermelha. “Acompanhei cada ida dele ao Projac. Às vezes, chegava animado porque o diretor tinha gostado da participação, mas que se resumia a uma frase só. E ninguém quer só isso”, diz Liane.

Em 2006, Sandro conseguiu um contrato de cinco meses na Globo para interpretar o policial que investigava o sumiço de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) em “Belíssima”, de Silvio de Abreu, quando um amigo contou sobre o teste para “o filme do Bope”. Em pé numa fila quilométrica, prestes a desistir, Sandro chamou a atenção da preparadora de elenco, Fátima Toledo, que pediu que ele voltasse no dia seguinte. “O teste era muito louco. Puseram um rock’n’roll e mandaram sentir a música e dançar. Eu detesto rock. Depois, tinha uma cena de improviso, o que eu domino”, lembra.

Sopro de deus
A facilidade para improvisar sobre o universo da violência do tráfico tem a ver com o cotidiano do ator. Ele nasceu e foi criado pela mãe, uma funcionária pública (o pai saiu de casa antes de ele nascer), num condomínio de classe média baixa em meio ao complexo de favelas do Lins. É lá que ainda mora com a família. “Já vi extorsão policial, covardia. A milícia é pior que o tráfico. O policial tem escolaridade e escolhe ser bandido.” Sandro planeja mudar-se para uma casa em outro bairro, mas “para ficar mais perto do trabalho e talvez por segurança”, diz ele. “As pessoas estão achando que fiquei rico e não é bem assim.”

Liane conta que, durante as filmagens de Tropa 2, entre janeiro e abril deste ano, o marido dócil, que sabe os nomes das amiguinhas das filhas, virou um bicho. “Ele foi visceral nesse trabalho. Não dava tempo de despir-se da brutalidade do personagem quando chegava em casa. Em certos momentos, balançou o casamento. Eu não soube como administrar”, admite ela. “Eu saía do set de filmagem onde era o chefe da milícia, chegava em casa e tinha que esperar o bife ficar pronto”, brinca ele. “Fiquei brutalizado, intolerante, agressivo.” O vilão deu a Sandro status de celebridade nas ruas. “As pessoas pedem autógrafo, fotos, dizem que morrem de medo de mim”, diz ele.

O próximo passo será usar a fama para concretizar seu projeto social, que há oito anos não sai do papel. “É o Projeto Ruah (sopro de Deus em hebraico), com aulas de teatro e alimentação para 210 crianças das favelas. Custaria 256 reais por aluno por mês, muito menos do que custa um presidiário ao Estado. Conversava com políticos antes das eleições sobre o projeto, mas, quando ganhavam, não atendiam mais o telefone. Agora começou a andar”, anima-se ele.

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