Todos os dias estamos acostumados a usar os nossos cinco sentidos para diversas atividades. Ao acordarmos, uma das primeiras coisas que fazemos é abrir os olhos e observar o mundo ao nosso redor. Em milésimos de segundo você sente a textura familiar dos lençóis da sua cama e o cheiro característico de um ambiente no qual alguém esteve repousando.

Indo para o banheiro se preparar para o dia, liga a chuveiro e ouve aquela corrente de água caindo e preparando o ambiente para você. Em menos de 15 minutos você já teve a capacidade de experimentar sensações para todos os sentidos do seu corpo. É ou não é impressionante? Na verdade, não tanto assim, não é mesmo? Mas e se eu dissesse que é possível misturar completamente essas sensações?

Você já imaginou como seria sentir o gosto de um cheiro? Ou a textura de um som? Ou que tal ser capaz de enxergar a forma com a qual uma comida é para o paladar? Essa reflexão maluca, na verdade, encontra uma contraparte no mundo real. Trata-se da sinestesia, uma condição peculiar que simplesmente se caracteriza pela mistura de planos sensoriais diferentes, incluindo os nossos cinco sentidos: o tato, audição, visão, olfato e paladar.

O que é a sinestesia?

A palavra sinestesia tem origem grega e é o resultado da fusão das palavras “união” e “sensação”. Em seu significado mais puro, podemos simplesmente dizer que se trata de aum mistura de sensações que envolvem os nossos cinco sentidos. Se você não é sinestésico, provavelmente fica um pouco difícil de entender, mas vamos nos esforçar para explicar.

Para a ciência, a sinestesia é um distúrbio neurológico raro e que se caracteriza exatamente por essa salada sensorial. Para as artes, o termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica.

Ainda parece muito confuso? Então confere os exemplos a seguir de como um sinestésico pode enxergar o mundo:

  • O número 5 pode ser sempre de cor vermelha e ter um gosto salgado;
  • A sexta-feira tem um gosto adocicado e soa como uma melodia calma e contínua;
  • Um solo de bateria pode ser capaz de produzir imagens de bolhas fosforescentes e um gosto ácida em sua boca.

Parece uma loucura? Mas é assim que alguns sinestésicos podem interpretar até as mais simples coisas do nosso mundo.

Na maioria de nós, os estímulos externos são processador em paralelo em nosso cérebro. A visão de um objeto, por exemplo, tem uma rota específica até o seu córtex visual. Os sons captados por seus ouvidos chegam normalmente ao seu córtex auditivo. Contudo, no cérebro do sinestésico, esses caminhos se cruzam produzindo uma verdadeira salada de fruta (ou sentidos) que pode ser bastante confuso para quem nunca experimentou essa sensação.

Mais alguns exemplos

Emoções cheirosas: o cruzamento entre os receptores olfativos do sistema nervoso central e o sistema límbico, que regula as emoções, faz com que, por exemplo, o cheiro de rosas deixe o sinesteta irritado ou vice-versa, que uma pessoa irritada sinta cheiro de rosas

Sabores com temperatura: não se trata de comida quente ou fria, mas de duas sensações diferentes se misturando no sistema nervoso central. E aí o gosto de vinho pode provocar a mesma sensação de frio que uma ventania, por exemplo

Cheiros barulhentos: por causa da confusão entre o córtex auditivo e os receptores olfativos, um perfume pode fazer a pessoa literalmente ouvir coisas. Pior ainda no caso dos cheiros ruins: além de ter que aguentar o fedor, a pessoa ouve uma barulheira junto…

Sons coloridos: em vez de ir direto ao córtex auditivo, os ruídos dão uma passada pelo córtex visual. Resultado: uma nota musical fica parecendo uma bola colorida

Nomes com personalidade: outro tipo recorrente. A combinação das letras ou dos sons que formam um determinado nome interfere no sistema límbico. A pessoa passa a achar que todo José é confiável, ou que as sextas-feiras são deprimentes

Números e letras com cor: é um dos tipos mais comuns de sinestesia. Rola dentro do córtex visual, no lugar de processar apenas o sinal escrito, com a cor com que ele foi impresso, o cérebro o relaciona com outras cores específicas

“Esse é um processo cerebral involuntário”, diz a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No total, já foram catalogados 61 tipos de sinestesia. Porém, as causas ainda são desconhecidas, embora saibamos que a genética tem muita influência.

“A sinestesia é comum em algumas famílias e está relacionada a pelo menos três cromossomos”, confirma a psicóloga britânica Julia Simner, da Universidade de Edimburgo, na Escócia. A confusão entre os diversos estímulos sensoriais também pode acontecer por outros motivos, como a alucinação pelo uso de drogas ou entorpecentes. Porém, nesses casos, a salada de fruta entre os sentidos é aleatória, enquanto que, para um sinestésico, o nome “verde” sempre será “verde”.

A forma do som

Eu sei que a sinestesia ainda parece um conceito absurdo para quem nunca ouviu falar sobre o tema. Os próprios sinestésicos sabem disso ao tentar explicar a sensação para outras pessoas. Para tentar resolver esse impasse, o designer Pasquale D’Silva tentou explicar, por meio do vídeo acima, o que ele vê ao ouvir alguns sons de uma música.

Assim como em outros sinestésicos, a mente desse artista associa sons com cores e formas geométricas bem características da maneira que você vê no vídeo. D’Silva até mesmo há criou um aplicativo para dispositivos móveis, chamado Keezy, que ajuda a explicar melhor a sinestesia para quem não consegue entender como essa condição funciona.

A sinestesia na história

A condição da sinestesia foi descrita pela primeira vez na história em 1690 por John Locke. O famoso filósofo passou a conhecer melhor o assunto quando relatou o caso de um cego que era capaz de perceber a cor vermelha através do som de uma trompa. Porém, a medicina registrou o primeiro caso de sinestesia apenas em 1922 com uma criança de apenas quatro anos de idade.

Porém, alguns registros sugerem que a sinestesia possa ser algo ainda mais antiga. O interesse em ouvir as cores data da Grécia Antiga, quando filósofos perguntaram se uma cor de uma música era uma quantidade calculável. Centenas de anos depois, o próprio Isac Newton propôs que tons de música e tons de cores compartilham frequências semelhantes, o que poderia despertar esses tipos de sensações.

A partir dos anos 1980, a revolução do estudo cognitivo fez o assunto dos cientistas voltar para a sinestesia. Nos Estados Unidos, Larry Marks e Richard Cytowic, acompanhados dos pesquisadores Simon Baron-Cohen e Jeffrey Gray, da Inglaterra, começaram a estudar a realidade, consistência e a frequência das experiências sinestésicas. No final dos anos 90, o foco do estudo se concentrou na sinestesia das cores, a forma mais comum dessa condição.

Desde então, diversos outros estudos visaram comprovar e demonstrar formas diferentes de sinestesia. Após o surgimento da internet e a massificação de meios de comunicação mais rápidos, aumentou ainda mais o relato de pessoas com capacidade sinestésica. Testes online acabaram identificando mais e mais indivíduos com essa condição, o que levou ao surgimento de vários grupos para agrupar e orientar essas pessoas. Entre eles, podemos mencionar: a American Synesthesia Association, a UK Synaesthesia Association, a Belgian Synaesthesia Association, a Canadian Synesthesia Association, a German Synesthesia Association, e a Netherlands Synesthesia Web Community.

Sinestésicos famosos

Em um mundo em que a sinestesia é perfeitamente possível e comprovada, não é de se surpreender que algumas pessoas famosas fossem portadoras dessa condição. Na história, há o registro de vários sinestésicos mundialmente conhecidos, o que é bem interessante se pararmos para pensar que pouquíssimas pessoas já teriam ouvido falar nessa condição.

Entre eles, podemos mencionar:

  • Lady Gaga, conhecida atriz, compositora, produtora musical, modelo, ativista e dançarina estadunidense;
  • Jimi Hendrix, guitarrista, cantos e compósitos norte-americano muito famoso nos anos 50 e 60;
  • Stevie Wonder, compositivos, cantor e ativista estadunidense mundialmente conhecido;
  • Pharrell Williams, cantor, compositor, rapper, produtor musical, baterista e estilista norte-americano bastante popular nos últimos anos;
  • Marilyn Monroe, a atriz e modelo norte-americana praticamente dispensa apresentações.

Os cientistas afirmam que as associações sinestésicas podem estimular a memória. É por isso que vários artistas, músicos, escritores e outros profissionais criativos podem acabar tirando vantagem dessa condição. Outros, entretanto, podem acabar tirando vantagem da suposta sinestesia que possuem.

No século XIX, um artista podia se passar por sinestésico para ficar mais próximo do invulgar, do excêntrico e até da perfeição humana. O artista plástico russo Kandinsky sentia fascínio pelos sinestésicos, e utilizou a sinestesia entre a música e a pintura para inspirar suas obras.

Tipos de sinestesia

Sinestesia grapheme-color: esse é um dos tipos de sinestesia mais comuns e se revela quando letras individuais ou até mesmo números estão sombreados ou tingidos com uma cor específica. Embora indivíduos diferentes geralmente não relatem a mesma cor para números e letras, estudos com um grande número de sinestésicos descobriram algumas semelhanças entre os sinestésicos. A letra “A”, por exemplo, geralmente é vermelha.

Chromostesia: outro tipo de sinestesia bastante comum é a associação de cores com o som. Para alguns, barulhos do dia a dia, como portas abrindo, a ignição de um carro ou pessoas conversando, podem disparar sons específicos. Para outros, cores são disparadas quando notas musicais ou tons são tocados. Determinadas cores são despertadas por sons específicos.

Spatial Sequence Synesthesia (SSS): os portadores dessa sinestesia extremamente rara são capazes de ver sequências números como pontos no espaço. O número 1, por exemplo, pode estar bem distante do número 10, que está longe do 100 e assim por diante. Geralmente, pessoas com SSS têm uma memória acima da média.

Mapa numeral: esse tipo de sinestesia se manifesta quando um mapa mental de números aparece de forma involuntária e automática sempre que o sinestésico pensa ou imagina números. Essa condição foi documentada pela primeira vez em 1881 na obra de Francis Galton em “The Vision of Sane Persons”.

Sinestesia auditiva-tácita: para os sinestésicos portadores dessa condição, alguns sons podem induzir a sensações em algumas partes do corpo. Algumas pessoas, por exemplo, podem experimentar a sensação na pele sem terem sido tocadas. Essa também é um dos tipos mais raros de sinestesia e bastante incompreendida pelo público de um modo geral.

Misophonia: essa condição é uma desordem neurológica com efeitos negativos, tais como raiva, medo, ódio e desprezo, disparado por sons específicos. De acordo com pesquisadores, essa experiência está relacionada a diversos tipos de sinestesia diferentes.

Ainda há muitos outros tipos de sinestesia, mas eles são mais raros e estão pouquíssimos descritos na literatura. Eles associam: cor-visão, cheiro-cor, sabor-cor, gosto-cor, gosto-sabor, som-sabor, dor-cor, personalidade-cor e outros.

Sinestesia na mídia

Em 2016, a fabricante de carros Peugeot realizou uma campanha envolvendo cinco pessoas sinestésicas. A ideia era mostrar como os sentidos podem se cruzar de forma surpreende e pouco compreendida para quem não conhece essa condição. Para aproximar as pessoas desse conceito, os comerciais mostram os sinestésicos sentindo sensações diferentes ao andar com um carro da marca.

Confira os cinco vídeos da campanha a seguir:

Sinestesia e o futuro

Ainda sabemos muito pouco sobre a sinestesia. Essa condição está presente em menos de 4% da população mundial, o que torna o seu estudo ainda mais difícil. Todos os esforços para entender o que é o como se desenvolve a sinestesia ainda são muito novos e precisam avançar bastante para chegarmos a conclusões mais assertivas.

Porém, graças a descoberta da sinestesia, descobrimos que o ser humano e seu poderoso cérebro é mais poderoso do que imaginávamos. Até poucos anos atrás, muitos nem imaginavam que algo como essa condição seria possível existir. As pessoas que manifestavam a experiência sinestésica eram taxadas de loucos. Agora, entretanto, podemos entender um pouco melhor a respeito dessa condição e nos aproximar ainda mais do momento em que finalmente entenderemos todos os mistérios do corpo humano.